quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Inseto no café

Eu vi o pequeno inseto cair no café
Lembro quando salvava, desde as formigas
As coisas pequeninas
Vi ele e deixei se afogar, lentamente, no café
Eu queria beber aquilo, tava quente no ponto certo e com pouco açúcar
Mesmo que salvasse aquele bicho, já se fora o café...
Seus movimentos foram terminando, pouco a pouco
Até que a cinética da vida
Abandonou, com espasmos de sua pequena carcaça
Já não estava mais vivo
No meu café


Me surpreendi quando acordei
Eu era o inseto, já não voava
E rodeado de cafeína líquida
Se mover estava cada vez mais difícil

sábado, 11 de novembro de 2017

Capitão

Não escuto mais além do zumbido
Disse pra mim o capitão do navio
furado
Imenso azul ao meu lado
Escuridão, as estrelas me guardarão
Não havia mais do que um zuuuum
E a voz do capitão
Sua barba mal-feita, seus trajes azul blue-monday
Seu olho de vidro, o outro de verde oliva
A muralha de água estava calma, porém não havia vento
E as velas estavam caladas, como eu
Menos o capitão, ele olhava
Pontos de luz escurecendo na tempestade que vira, vinha
A voz do capitão me falava
Dava alguma esperança, outra alguma fiança
O zumbido continuava e não
Mais havia apenas céu noturno
Ou oceano profundo
Havia eu
E o capitão
Sozinho em seu próprio barco a vela.

Loiro lá fora

Aquele moço loiro, aquele moço lá fora
Ele jamais entendia o que dizíamos
Apenas ficava ali, falando coisas chatas
Profundas, mas chatas
Ninguém vive nas profundezas
Os peixes do oceano lá só estão
Os mais estranhos da criação
Não, aquele moço loiro andava pelo pátio
Cantando e dançando
Falando mais que deveria
Falando daquilo que não deveria
Falando do que não sabe? O suficiente?
Aquele moço era um bobo
Da corte dos não-nobres
Dos homens-mulheres-comuns
Dos normais, com alguma substância
Não, aquele dançarino, viajava entre os montes
Dos últimos mapas
Nas fronteiras do bizarro
Abraçado com as poucas ninfas que conhecera
Era um pobre, parvo
Pobre bobo da corte
Sempre divertindo, porém nunca regendo
escrevendo ou conhecendo
Sua função era fazer rir
Mas, quando ria?

Piada

Você é a piada
O outro, o estranhíssimo
Vive como qualquer, respira como eles
Tem ideias semelhantes, as vezes
Fala bobagem
Vê filmes, coisas e pessoas
Só se sente, cômico
Você é a piada mal-contada
Sem graça
Você é um pequeno gracejo que se escuta
E se esquece, lembrando ora
Que precisa de algum causo
Você é a piada de si mesmo
Ali, olhando sempre como um espelho
Só vê você, mais nada
Só reflete esta piada de mal-gosto
Só dá desgosto
Só vale o nada
Eu ainda rio, pois já não choro
Apenas com a beleza, de certos olhos e sorrisos
Apenas de algumas palavras
Mas, sempre ela volta
Piada.
Você, você que lê...
Não é engraçado, nem mesmo trágico
Só nada
A piada
de você.

domingo, 5 de novembro de 2017

Ode a pilha de livros

Minha vida se resume a comprar livros que não lerei
Parei de lê-los
Leio vidas agora
Leio pessoas
Elas estão lá, com sua palavra
Texto e frases
Buscam efeitos, buscam ser românticas, filosóficas
Criticam a poesia, criticam a ficção muito fantasiosa
Ou, vivem nela, buscando um mundo
mais simples?

Minha vida se resume a comprar livros
Estou rodeados por eles
Cada vez que chego na página 40
Paro, compro outro
E mais outro
Simplicidade das pessoas
Que buscam nas páginas mais letras que
Não existem nelas mesmas
Na vida cotidiana
Na beleza que não é mais aceita, apenas
imposta
Liberdade de ler que é apenas
A liberdade que dizem ser a correta

Correção
Das palavras, de cada frase
Seu sentido latente, seu contexto maior
Que o poema
Páginas dizendo mais que as palavras
O que se escreve com o coração já não importa
Só se o livro é bonito, burguês ou progressista
Não importa, o que vale é a capa
Ou fingir que busca a essência
Ou fingir que está lendo isto daqui
Enquanto vomita seu ar na rua
Do mundo

Enquanto escreve a sua existência
nesta leitura
O mundo não está ligando
Ligue-se um pouco em si mesmo
E vá ler esta pilha de livros que comprou
Ou lutar contra eles, minimamente com palavras
Pois, eu, Quixote, já estou derrotado
Mas, melhor já ter passado pela batalha
(dentro de livros?)
Do que perdido entre as ruelas
Vomitando o seu ar
Da existência pela existência dos outros.



Pequeno Circular

A gente fica pequenininho
pequeninho
De você mesmo
A gente se sente aquela coisinha
Dentro do peito enorme
Vazio intenso, que tem alguma coisa, mas, que esqueci
Eu não lembro que dia é hoje, se tomei banho, se li isto ou se vi aquela pessoa
Argumentos perdidos dentro da imensidão
Do pequenininho
Mundo.
De nada, obrigado, por favor
Problemas de dentro não são maiores
Só são infalíveis
In-fugí-veis
Impenetráveis aos olhos dela
Conhecidos apenas dele
Permaneço naquele ônibus olhando sua janela
Vazia de gente na metrópole lotada
Pequenininho.


domingo, 29 de outubro de 2017