domingo, 28 de maio de 2017

Terrível

"Em uma reunião com velhos amigos, um destes me perguntou:
-Sabe o que é mais terrível de acontecer a um indivíduo racional?
-Tirar sua família - Respondi.
-Suas posses - Disse Ricardo.
-Seu amor! - Disse outro.
-Sua vida! - Disse Kátia.
-Não, qualquer uma destas coisas não poderia afetar a maioria dos seres pensantes, porém, dê-lhes algo que eles querem, qualquer uma destas coisas, então, de súbito, peça novamente!
-Ora, questionava Ricardo ressabiado, ele pode pedir qualquer coisa, ter qualquer coisa, porque devolveria?
-Ele não precisaria, imagine que não tivesse opção, que esta coisa iria embora de uma maneira ou outra...
-Então, o que seria terrível? - Interrompi
-Agradecer pelo que foi dado e odiar o seu fim, aí está, a balança entre a gratidão e a mortalidade das coisas e prazeres mata o homem, gota a gota, enchendo-lhe das mais terríveis esperanças.
...
Ficamos em silêncio, brindamos um pouco e até rimos."


Trecho do livro: Almoço Grátis
Sobre um cronista social que investiga um assassino de passados em uma sociedade pós-capitalista, autoritária e com mechas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Lei

A palavra de ordem ganha mais força que a própria "ordem", o grito que a palavra dita. Logo, de tanto gritar alguma coisa silencia, seja pelo ato de não ter mais voz, seja pelo ato da força

terça-feira, 11 de abril de 2017

Encharcado

Estado Mental:
encharcado até os ossos
Vicky estava olhando pra janela pensando
No último pingo de chuva
Que adormecia na terra
A água pingava nos óculos
A lua queimava na garganta
A chuva encharcava o ar
Ou ela encharcava a chuva existindo?
Não sei, preciso de uma toalha
Secador de cabelo
Chá quente
Mas, agora ainda não
Te caiu mais dois pingos d'água
Ela estava chovendo
Encharcado a vida até os ossos

quinta-feira, 23 de março de 2017

Filósofo

O filósofo tentou escapar da sua capa
De invisibilidade social
Não era preciso como o médico
O gari
O advogado
O açougueiro
O filósofo então tentou fazer Universidade
Tentou dar entrevista na Tv
Tentou montar blog e página
Tentou até escrever
O filósofo se cansou quando se deu conta
Que tinha esquecido
Foi pra caverna
Trancou-se lá até se entender
Apenas vendo a sombra dos outros a passar
O filósofo morreu de fome
Mas, agora estava no topo de uma montanha
Observado a humanidade, o humano e o comum
Culturas, amigos e gentes
Bem e mal
O filósofo decidiu voltar a vida
Não era pra falar, era pra ouvir
Então o filósofo saiu da caverna
Caverna que está aí
Foi assim que vi ela
Eu estava aqui, sentando no meu banquinho
De maquiagem
Ela entrou e começou a procurar um batom
Era o mesmo do meu
E eu senti
Que era o mesmo do dela
Não sou muito dessas que chega direto, mas
Quis ser certeira
Tinha de ser
Tinha 20 e poucos anos, sem diploma
Nem carreira
Tinha de buscar pelo menos um amor
Sorte no Jogo, nunca tive, afinal, sempre perdia no bafo
Pros meninos
Tentei
Ela sorriu
Não sei se sem jeito, ou pra me dar o telefone, contato, sei lá
...
A luz acabou na loja
E tudo no breu
Não mais vi ela
Quando acordei, já tinha passado
A oportunidade é algo que só existe quando estamos olhando
Pra ela
São como os sonhos
Se não, eles viram pedra
Mas, será que não é na pedra que devemos
Construir, não na areia?
Não sei, tenho 20 e poucos anos
Nenhum diploma
Nem carreira
Espera, é ela ali na porta?