quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Inseto no café

Eu vi o pequeno inseto cair no café
Lembro quando salvava, desde as formigas
As coisas pequeninas
Vi ele e deixei se afogar, lentamente, no café
Eu queria beber aquilo, tava quente no ponto certo e com pouco açúcar
Mesmo que salvasse aquele bicho, já se fora o café...
Seus movimentos foram terminando, pouco a pouco
Até que a cinética da vida
Abandonou, com espasmos de sua pequena carcaça
Já não estava mais vivo
No meu café


Me surpreendi quando acordei
Eu era o inseto, já não voava
E rodeado de cafeína líquida
Se mover estava cada vez mais difícil

sábado, 11 de novembro de 2017

Capitão

Não escuto mais além do zumbido
Disse pra mim o capitão do navio
furado
Imenso azul ao meu lado
Escuridão, as estrelas me guardarão
Não havia mais do que um zuuuum
E a voz do capitão
Sua barba mal-feita, seus trajes azul blue-monday
Seu olho de vidro, o outro de verde oliva
A muralha de água estava calma, porém não havia vento
E as velas estavam caladas, como eu
Menos o capitão, ele olhava
Pontos de luz escurecendo na tempestade que vira, vinha
A voz do capitão me falava
Dava alguma esperança, outra alguma fiança
O zumbido continuava e não
Mais havia apenas céu noturno
Ou oceano profundo
Havia eu
E o capitão
Sozinho em seu próprio barco a vela.

Loiro lá fora

Aquele moço loiro, aquele moço lá fora
Ele jamais entendia o que dizíamos
Apenas ficava ali, falando coisas chatas
Profundas, mas chatas
Ninguém vive nas profundezas
Os peixes do oceano lá só estão
Os mais estranhos da criação
Não, aquele moço loiro andava pelo pátio
Cantando e dançando
Falando mais que deveria
Falando daquilo que não deveria
Falando do que não sabe? O suficiente?
Aquele moço era um bobo
Da corte dos não-nobres
Dos homens-mulheres-comuns
Dos normais, com alguma substância
Não, aquele dançarino, viajava entre os montes
Dos últimos mapas
Nas fronteiras do bizarro
Abraçado com as poucas ninfas que conhecera
Era um pobre, parvo
Pobre bobo da corte
Sempre divertindo, porém nunca regendo
escrevendo ou conhecendo
Sua função era fazer rir
Mas, quando ria?

Piada

Você é a piada
O outro, o estranhíssimo
Vive como qualquer, respira como eles
Tem ideias semelhantes, as vezes
Fala bobagem
Vê filmes, coisas e pessoas
Só se sente, cômico
Você é a piada mal-contada
Sem graça
Você é um pequeno gracejo que se escuta
E se esquece, lembrando ora
Que precisa de algum causo
Você é a piada de si mesmo
Ali, olhando sempre como um espelho
Só vê você, mais nada
Só reflete esta piada de mal-gosto
Só dá desgosto
Só vale o nada
Eu ainda rio, pois já não choro
Apenas com a beleza, de certos olhos e sorrisos
Apenas de algumas palavras
Mas, sempre ela volta
Piada.
Você, você que lê...
Não é engraçado, nem mesmo trágico
Só nada
A piada
de você.

domingo, 5 de novembro de 2017

Ode a pilha de livros

Minha vida se resume a comprar livros que não lerei
Parei de lê-los
Leio vidas agora
Leio pessoas
Elas estão lá, com sua palavra
Texto e frases
Buscam efeitos, buscam ser românticas, filosóficas
Criticam a poesia, criticam a ficção muito fantasiosa
Ou, vivem nela, buscando um mundo
mais simples?

Minha vida se resume a comprar livros
Estou rodeados por eles
Cada vez que chego na página 40
Paro, compro outro
E mais outro
Simplicidade das pessoas
Que buscam nas páginas mais letras que
Não existem nelas mesmas
Na vida cotidiana
Na beleza que não é mais aceita, apenas
imposta
Liberdade de ler que é apenas
A liberdade que dizem ser a correta

Correção
Das palavras, de cada frase
Seu sentido latente, seu contexto maior
Que o poema
Páginas dizendo mais que as palavras
O que se escreve com o coração já não importa
Só se o livro é bonito, burguês ou progressista
Não importa, o que vale é a capa
Ou fingir que busca a essência
Ou fingir que está lendo isto daqui
Enquanto vomita seu ar na rua
Do mundo

Enquanto escreve a sua existência
nesta leitura
O mundo não está ligando
Ligue-se um pouco em si mesmo
E vá ler esta pilha de livros que comprou
Ou lutar contra eles, minimamente com palavras
Pois, eu, Quixote, já estou derrotado
Mas, melhor já ter passado pela batalha
(dentro de livros?)
Do que perdido entre as ruelas
Vomitando o seu ar
Da existência pela existência dos outros.



Pequeno Circular

A gente fica pequenininho
pequeninho
De você mesmo
A gente se sente aquela coisinha
Dentro do peito enorme
Vazio intenso, que tem alguma coisa, mas, que esqueci
Eu não lembro que dia é hoje, se tomei banho, se li isto ou se vi aquela pessoa
Argumentos perdidos dentro da imensidão
Do pequenininho
Mundo.
De nada, obrigado, por favor
Problemas de dentro não são maiores
Só são infalíveis
In-fugí-veis
Impenetráveis aos olhos dela
Conhecidos apenas dele
Permaneço naquele ônibus olhando sua janela
Vazia de gente na metrópole lotada
Pequenininho.


domingo, 29 de outubro de 2017

sábado, 28 de outubro de 2017

Luz correndo pela casa

Passando entre o piso molhado
de cerveja
Estava ela, linda, loira e olhos de cigana
Cigarra da noite no meu copo
Luz vermelha no dela, cortados ambos
Pelos raios de luz da casa
Não sabia se aqueles cabelos eram de homem
Ou mulher
Já não importava
O som corria entre nossos corpos
E as faces ocultas pelas sombras
Do que os raios da luz da casa
Não iluminavam mais
O cometa corria entre as paisagens da noite
Como faíscas da pílula tomada horas antes
Como o beijo dado naquele momento
Como a dor de cabeça que veio
...
Raios já não eram de luz azulada
Luz fabricada
Tecnologia humana apagada, milhares de anos de evolução
No meu corpo cansado da noite
Trilhões de antepassados caídos
pela poeira do tempo
Já não importava
Ali estava ela
Com seu sorriso cortando a face
E com cada ponta da boca me levando aos olhos
De beleza desgrenhada
Na simplicidade eu enxerguei o belo
Na luz não fabricada
Naquele raio de luz da casa
Amarelo de sol
amando por dois minutos
O momento, a pessoa ou eu mesmo
Liberdade das estrelas em correr
Pelos céus
É menor que a minha
Em viver minha vida nos momentos?


Submarinar



Entrou num submarino

E o oceano era o coração dela

Nemo adentrava nas profundezas, a cada dia

Cada sorriso, jantar, cineminha

Já não estava sozinho, o capitão

Meu capitão

Porém, na imensidão se encontrava

E sobre toda a massa aquática havia

O reflexo da lua lá no alto

Lá no alto

Ele ali, nas profundezas

Ele estava ali, e era o sonho dela




Ela olhava pra Lua buscando um espelho

Nemo adentrava em seu peito

E cada vez mais, lá montava

Um lar quente

Nas profundezas

Do Oceano de Raiana.


O mundo do medo é estranho
Ainda mais quando mais quando
Se tem medo de si mesmo

------

A visão da estátua me fita
Vou morrer
Ela, de pedra, eterna está
Sua beleza aparente é o único detalhe, enorme
Que a separa das montanhas das pedreiras
Aquele olhar da estátua
Buscando a eternidade

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Não somos importantes

"Não somos importantes, ninguém é de fato no cosmos, porém isto não tira a chance de podermos colocar algum esforço em tratar ao máximo bem algumas pessoas, pois, se no fim só há pó, mesmo se lá não existir nada, pelo menos alguém passou e teve alguma ajuda de nós mesmos. Viver apenas na necessidade de si mesmo não é egoísmo, a vida está nos outros também, pois não temos certeza se ela está em nós, mas a vemos nos outros, nas coisas belas e ações com alguma bondade e generosidade; ao mal a resposta é fácil, simples, da vingança ao que alguns praticam como piedade, é ao bem, a se esforçar pelo outro, mesmo que próximo, o que é justo, que se configura algum nível de potência.
A força em si mesma não importa, porque no final todos não importamos de fatos no Universo, pois, é evidente, o Todo não nos dá valor, é o pouco, o pequeno, o outro que o pode. E se eles não são cuidados, perdem-se no esquecimento, no Vazio entre tudo e todos, entre o ontem e o acumular dos anos, vazios, arrependidos e não mais jovens." (Emil Haddaward)

domingo, 22 de outubro de 2017

Atenção

Algumas coisas precisam e merecem atenção
Algumas pessoas merecem-a
Atender-se a elas
Pois, o mundo é muito cheio de vidas
Sonhos e desejos
Assim como ódios, abraços e beijos
Porém, o espírito que está aqui preso
Neste corpo
Nada mais possui que algumas horas
Pra despender
Dando atenção
Horas acumuladas em dias
Meses acumulados em anos
Anos acumulados em rugas, dores nas costas
Arrependimentos e lembradas
Esquecida
A atenção
Fazei-a as vezes para ter de volta
Moeda de troca débil, nunca vejo recompensa
Fazei-a com a interesses
Apenas é usado
Faça, porém faça
A atenção que você despende e vale a pena
Para aqueles que valem a pena
Mesmo que não amem de volta
Não falem de volta
Não te vejam nunca mais, aquela senhorinha
Que ajudei no ônibus
A atenção que você despende
Frutifica o teu tempo, você dá atenção
A si
Mesmo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017



Poesia é a minha doença mental.
Encontre a sua pra culpar
Se não lhe interessa, não olhe
Se não lhe agrada o ritmo, não escute
Se te cansa, não exista


Tolero minha presença por questão prática
Pratico poemas por receita médica
D'eu mesmo enquanto Doutor
Não é cult, erudito ou escritor
É fuga, sinfonia do silêncio, exprimir no trecho
O que você sente na vida
É parafrasear o infinito
Na minha vida parca e perdida
Poesia é um ato de resistência
Minha amiga se chama Melancolia
Se seus sonhos são felizes
Agradeça a e eles e agradecerei a minha

Pois, a doença ainda é minha
Única amiga

O cheiro do cabelo

Seu cheiro d'cabelo,
Relva fresca do campo
Juventude me lembra
Ermitão
Hermeticamente fechado batalho,
Oh, Dulcinéa perdida,
Sonho em te ver Diana assumida
Mas, hermeneuta
Selado em Atena, oh Atena!
Todas as deusas estão mortas

E o solitário em sua caverna
E a solidão do quarto cheio de apenas
Poemas
Mito de sombras
Existo buscando luminária, nego-lhe
Nego-me em espaço
Ser necessário

Do quarto ao claustro,
Conto ocasional abraço
Perdido nesta Guerra
De sombras, sonhos e Faustos


Apunhado

Lembrei d'um tempo em que
As coisas eram mais simples


Em que você me como
Futuro e não apenas
Um punhado de Passados


Lembro de tempos de atos comuns
Um olhar na cama, um café na janela
Um dia cansado, um agrado perdido
Diamantes que agora
São meus amigos
Pérolas destas lembranças,
dadas aos porcos


Te olho agora no espelho
Reflito no reflexo
É só luz, toda, tudo
Toda a imagem é só um punhado
de luminosos espectros


Vidro olhar na imagem
Ela me diz apenas do passar
Ela me olha como seu futuro
seu guia, professor
Pérolas aos porcos, perdão
outra ilusão, perdoar
Ato do outro, ali no espelho


Lembro de outra época
Quando refletido ali
Alguém estava
Agora no Presente
Punhado.

domingo, 15 de outubro de 2017

Manifesto do Homem-Fragmentado



Verdade Essencial

Busque você a sua Verdade Essencial, já encontrei ela na forma de jovens e impetuosas estrelas, na forma de bruxas da floresta telúricas, na forma de mestres das altas montanhas, de calculistas amáveis e viajantes conquistadores de novas brisas. Eu mesmo estou a forjar a minha, ao que parece, a trilha da batalha de nós contra nós mesmos é a mais sofrida, a mais difícil e aparenta acharmos poucos que compartilham das aparências que temos para nós mesmos nesta forja do auto-conhecer.

Eu sou eu mesmo enquanto fragmento, entre Lobos Solitários, Doutores de série de tv, Supernovas, Sábios e Burros. Várias formas e jeitos, máscaras e atuações me são possíveis porque a mim é revelada esta Verdade, e aqui eu a trilho como Caminho que se faz na Jornada de viver. Sua dupla natureza é tanto cinética, mover-se, andar, aí está o Caminho que eu faço, quanto da Jornada em si, misteriosa, cheia de consequências e impropérios, porém, ainda aqui, permaneço me sustentando mais pela curiosidade do que amor próprio.

Eu sou eu enquanto Homem-Fragmentado, cada peça, atuação, cenário e dia vão se montando e me revelando várias coisas. Sou conta o Superhomem, sou contra a Graça Pia e O Homem Bom por Natureza, somos em conjunto maus e mesquinhos, Patolinos querendo ser Pernalongas, neste Faroeste da Urbanidade, vemos os outros em Bons, Maus e Feios, entre a Ética, Moral e Estética.



Este é o Manifesto do Homem-Fragmentado e fragmentando-se, busque você, filosofi-se, qual é tua Essência, homem, mulher, humano? Finda-se em Aparência?

Guerreiros Galáticos

Eu nunca vejo esta luz
Que tanto falam, que eu tive uma vez

Uma Armadura de Soldado, dos Guerreiros Galáticos
Contém um segredo, seu ponto de vida ou não
É uma pequena lamparina
Pequena fagulha acesa
Eu nunca vi a minha
Apenas vi da Elfa Felícia, da Tenente Lupina
Do Sábio dos Mil Jogos, da Irmã Perdida
E mesmo lá, agora descansando, do Coruja Insone e do Seu João
Me dizem que eu a tinha
Pequena luzinha
No espelho eu só via oceano
Soturno, profundo
Apenas isto
Jamais mais

Apenas via, não verei mais.
A última Guerra Sideral desta última lágrima jamais
Tida, em qualquer que fosse a partida
Aqui não existe lâmpada, não existe luz
Nenhuma
Assim que este Guerreiro caça pelas Galáxias
Em sua alva armadura, nada existe além
Da Luz Negra de suas próprias falácias
Memórias daqueles que tombaram
Vilão por vilão, monstro por monstro
Império por Império, dentro ou fora de sua cabeça
E da total Fraqueza de Espírito

Voa o Serafim Vico, em direção ao fogo
Na batalha contra si, já perdida.


Relato de viagem 2001

Amarilis teve sua fronte iluminada
Pela Estrela de Éden
A Constelação jamais tocada, rodeada por nebulosas furiosas
Ali estava ela, solitária
Em sua espaçonave
Ali, a Fronteira do Homem se tocava
Com os Portões de Deus

Ela tocou os últimos ajustes nos painéis
E preparou para a abordagem
Era uma data incerta de tempos remotos
Eram corações que jamais bateriam novamente
Trilhões e quadrilhões de antepassados
Tocando aquela luz
Prometeu havia finalmente chegado
E estava para libertar o espírito dos humanos

A Estrela pulsava, Amarilis sabia
Que já estava em silêncio o Universo
A Terra abusada, em alguma direção
O Horizonte vívido de verde e anis das luzes maquinárias
Preparou-se
Começou
Cada pulso do Éden era sugado
Cada pequena explosão daquela tempestade
Tornava-se fonte alimentada
Amaralis comandava
A Matadora de Estreladas
A Alimentadora do Reino dos Homens
A Salvação da Humanidade
Pois, estávamos frios naquele ponto
E a capitã era a única coordenada
...
Já não pulsava mais nada ali
Desenganada, disse
-O que haverá agora?
O Éden não foi suficiente
E nem mil delas seriam
O pó era pó
E jamais deixaria de sê-lo
Mesmo tomando a forma das estrelas
Mesmo engolindo planetas
E mesmo em aventuras insólitas por tempos insólitos
Tu és pó
Somos pó
E dele nada se constrói, apenas se espalha
No próximo vento.


El Bravo

O Bravo entrou naquela sala, nele já não havia mais nada
Apenas a vontade de luta armada
Jamais pensada, cogito logo existo
Precisava existir ao menos numa última noite
Mesmo que fosse naquela data
Após aquela bela tarde de jovens brilhantes e cinéfilas saltitantes
Suas garras tocavam as coisas, delas ficava o breu.
O Bravo já não era o mesmo, nem aos seus
Escondido entre versos e poemas podres
Sua lâmina espada tinha endereço fixo, o próprio
Peito
Não a outro, mas, ao próprio Bravo tinha-se desfeito

Desfaço em fita e laços que jamais tive, ou terei
Não confio mais em mim, quem dirá nos outros,
Quem dirá na própria lâmina
Disse o homem ao chegar na boca da caverna
Ao pé da montanha
Havia uma quimera lá, disse um aldeão vizinho
Entrou de pé-a-pé, quietinho
Noite fria do Sul, chuva fininha do Leste
O sol não nascera, apenas uma luz vermelha
Adentrando o Bravo olhou
Caixa de tesouro de um lado
Uma foto de uma bela dama n'outro
A poção da sempre-vida num canto
Aonde estava a criatura, questionava o Bravo?

A criatura era eu.
Quimera, fragmentado
Com o jornal lido embaixo do braço, xícara de café
A metade
Nenhuma visão do futuro que não fosse
A próxima meia hora perdida do relógio
Sua vida era desprezível, punível
Por não aproveitada
Mas, o Bravo ainda me olhava, com a lâmina guardada
Escondida
Nela havia meu nome
E eu escrevi o nome dela

Não podia fugir agora
Era escritor perseguido pelo texto
Pela memória ingrata
Das palavras que mesmo escritas
Perseguem
Matam
Acolhem no abraço
Sinfonia das palavras
Fúnebre dos combates jamais vencidos
Pois, jamais foram lutados

Era escritor rugido de seu próprio poema
Queria ser Bravo
Só fui Quimera.




Apenas na tristeza da asa da borboleta imaginada
Que o voo é doce no sofrer de cada
Alvorada sobrevivida.

sábado, 14 de outubro de 2017

Abismo

Se está na beira dum abismo, pula ou não pular
Ato ou infinitivo, como este pensamento, nestes dias de sombra

Me escondi entre nós mesmos
Mostro cada vez mais, minha face monstruosa a
Quem amo.
Mas, ela é, parece, a única amiga que tenho
Aquele rosto que já não mais se reconhece em nada, não pensa mais em nada
Pro futuro
És o mais perigoso.
O navio partiu e há muito pouco o que se ver
Além do mar aberto
Do oceano profundo
Das lágrimas que estão lá, perdidas no meio dele
Menos salgadas por que sei que outros sofrem?

Já não sei mais, é
A beira do abismo que fascina
O voo de Ícaro, protegido em seu salto por uma corda
Amarada no pescoço.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Blade Runner 2049



O que é um androide?

Para além das divisões técnicas do mundo nerd, penso que é aquela máquina que busca emular nós, humanos, em seu agir, seu ser. E nesta viagem pela continuação do filme dos anos 1980, mesmo que eu a tenha assistido dublada, me levou entre a busca de entender o que nós mesmos, ainda humanos, temos de máquina; é na Distopia de 2049 com sua duração longa, música imersiva (para um amante de Retro Wave como eu, um presente), e respeito pela "lentidão" do primeiro longa que somos levados a buscar naqueles personagens robóticos que nos parecem mais humanos e humanos, que já não nos parecem mais que máquinas - seria uma espécia substituindo a outra? O homem-máquina que aprende o que é ser homem?

Volto a pergunta inicial, o que são estas máquinas de força e resistências ímpares, que são capazes de amar (minha completa paixão pela Ana de Armas neste filme) e Ryan Gosling, que emula um Blade Runner poderoso - o final, que eu ficara em dúvida todo o filme, demonstra uma expertise que parece que o primeiro não possui, algo que quem ver a película entenderá. Além de vilões propriamente feitos e um fantástico cenário expandido e com vários pontos que ligam com o primeiro filme.

E ligações aparentes, desde "voltar pra casa", até o herói na neve, passando pro outras coisas já não ligadas, mas que ligo com outros elementos, como o Olho de Odin dos Replicantes ou o Cavalo de Troia. Tudo isto, de fato, embeleza o filme ao pensarmos sobre ele.

E pensando sobre ele, digo que ainda acertei no dia de vê-lo, pois, foi andando na chuva de Curitiba que sai do cinema, libertado de mim mesmo, quais seremos nós nas gotas que caem do céu? A chuva que cai nos revela vivos, revela o ciclo que mesmo os androides fazem parte, que mesmo nós, também e muitas vezes robóticos, vivemos nossa vida, até que momentos, amores, fúrias, lágrimas (paralelos usados e muito no filme) e mesmo memórias - que nos fazem quem somos - revelem esta vida, esta potência, mesmo no mar da artificialidade.

O que é um androide? Nós mesmos na chuva ou na neve de nós mesmos?


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Incalculada

A vida é incalculável,
Sobre os pés a sentinela de meus dias
Observa o Crepúsculo dos Ídolos,
que passo a passo guardo
Dentro da última noite estralada, daquele
Infinito enquanto momento
Último beijo estrelado

Ah, viver intangível!
No passo primeiro do filho,
Almoço da mãe amada
Afago do pet em cada chegada
Jamais finda a alegria,
Jamais tida, começada
a vida
Ah, dela só sai terminada

Entre as platinas dos corações amados,
Porém apenas amigos
Entre as tormentas dos trabalhos,
Incompensáveis pelo salário
Entre as façanhas da rotina, 
com tédios implacáveis
Aonde está você, vida?
Encolhida? Mau-amada? Calada?
Me responda!
...
Jamais, sentinela de si mesmo
Obteve resposta.
Viver é busca sem escuta, nem escrita
O que se faz calado
Falando em pensamento
e, enfim vivendo
Cada infinito momento
Ao lado.
Da vida.
Da vida.


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Ao Capitão Emilio Limão

"Quanto viajei para estar aqui
Entre os braços do fim
Nas últimas portas do mundo

Encontrei, achei o meu próprio eu
Navegando entre o desespero
Acumulei tesouros que não precisava
Meu filho, pequeno desastre
Pareço nunca entender
Apenas o silêncio, porém, nos explica"

Meu pai, saúdo as treva que lhe guardam agora
Saúdo como aquele saúda a Tristeza
Como ela me vê de canto de olho
em cada espelho, em cada mísero espelho
Melancolia de nossas escolhas jamais feitas
Das palavras não ditas
De lágrimas que são feridas

Jamais navegando por águas que ainda estou
Jamais encontrei amigo como você
Sua barca atravessou com o guardião
Lhe deixei moedinhas
Espero que pague a conta direito
Nos braços do espírito da Curiosidade
Da História e da Arte me deixou
No respeito por cada problema que tive
Com a atitude franca e possível
De ir.

Se vire, me viro
Ainda estou tentando
Navegamos entre nós, entre nossa humanidade perdida
Nos oceanos das palavras, memórias e perdas
Adeus, meu pai
Até, capitão de sua vida!
Cuide-se, eu me cuido com algumas pessoas aqui
Descobrir cada tesouro em cada uma delas
Ensinar os caminhos da Geografia de si mesmos
Ler meus mapas está difícil sem gente como você

Navegue, permanece navegante
Que os mares jamais deixarão de te lembrar



Veneno

Veneno
Aquela coruja das pradarias, me visita noite
Aqueles olhos de vidro refletidos em uma brilhante Rua XV
Aquele momento no show do Noel, stand by me
Don’t Look Back In Anger
Pingo por pingo
Caem aquelas memórias e me matam
Coisas preciosas, diamantes, estrelas voadoras, passos que já
não escutamos

Fora de minha lembrança
Fora dela, apenas o Esquecer, a morte do ser
Mas, parece que elas eu não esqueço
Entre quem vejo sempre, quem falo as vezes
Quem jamais vi outra vez, desde que saiu do bus

Escuto sempre que posso seu piado na noite, coruja
Lembrarei sempre dos seus olhos brilhantes naquela avenida de gente
Da aventura paulista
O mundo é enorme e vasto,
Império dos Esquecimentos
Mas, ainda estou aqui, com vocês
Nas memórias que valem a pena
Veneno que não mata
Vive.



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Quadro na cabeça 1

Vou pintar seu cabelo
Com pequenos laços de cor
Com as luzes da cidade
Vou pintar seu cabelo
De dourado do sol
De faíscas da lua
Da ajuda que nunca dou nos livros
A cor escolhida é a sua mesma
Cada flor desabrocha no seu tempo
Cada fagulha incendia a floresta no seu dia

Em cada momento preto-e-branco
Mesmo em tons de cinza existe ainda um olhar
Coloridinho sorridente.


sábado, 30 de setembro de 2017

Uma dança

Com seus gestos finos, ela atravessa
A gente, toda ela
Com pequenos passos em
Pequenos pés
Ela chega até mim, com uma tulipa no cabelo
E vestido carmim
Principessa da última noite,
Havia uma sombra ali no umbral
Quieta, silenciosa, enquanto nós dançávamos naquele
Carnaval
De máscaras, samba e calor
Não havia mais nada em mim
Que não fosse ela
Nem eu, que não fosse nós
Havia algo naqueles campos de gentes
Naquela festa infernal
O pecado morava ao lado, mas eu era seu vizinho
Elegantemente, nós rodopiávamos passos de dança
Pelo salão do bloco de rua
Havia algo naquele mundo de desconhecidos
E eu não sabia seu nome
Nem ela o meu
Adeus, minha bela dama
Jamais dancei
Como naquela noite


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Jaqueta Chiclete de Morango

Pic, ploc
Fez o chiclete rosa que ela
Estourou na minha cara
Era um sol de Primavera
Era há uns 9, 8 ou 10 anos
Atrás
Mas, está aqui na minha frente
Sua jaqueta de couro emprestada, brilhava
No meu coração
Um vento gelado caiu de cá pra lá
Eu nunca perguntei d'onde veio
Ninguém sabe muito quem vai primeiro
Nestas coisas
Foi um bom momento
Guardei no coração
O colégio tinha acabado de
Acabar
Saímos por uns minutos, até vermos o sol
Poente
Ela foi pra um lado, eu, pra outro
Gostinho de chiclê, de morangos
Nunca mais nos vimos
Nem sei se ela se lembra
Pic, ploc
Oi, minha moça de jaqueta emprestada
Tu tá na minha lembrança

A tristeza é de quem fica,
porém, a lembrança também,
cabe escolher o que fica por um tempinho
e o que fica por mais tempo, aquecendo o coração

Falta

A gente enterra alguém aos pouquim
Cada passo em direção a cada levantar da cama
Sem aquele.

Não tema pela solidão de um romance
Tema pela solidão de um amor
A presença que não está mais lá
A luz que não abarca mais a noite

É puro crepúsculo, a juventude já não me engana
Tanto
Maduro não é maior, nem menor, é diferente
O som toca diferente
A letra cala na alma
Minha mente consente
Em você, nela
Nele, ni'mim

Não estou terra-arrasada, só não estou mais eu aqui
Tanto quanto costumava ser
E gosto disto
Não gosto da falta, mas, persistir com ela
Já é alguma coisa.
Porque só por ser inevitável
Não exclui teu ato de coragem
Só por ser comum
Não exclui a chamada a caridade
Só por ser areia na estrela
Não exclui a grandeza que
Desapercebido podes fazer
Compensa a falta sendo alguém pra alguém
No momento que precisar

Talvez ela passe, até
Você faça falta


Lágrima pesada

Acabei encontrando esta
Fotografia numa pasta
A madrugada, ouvindo Cartola e Nelson, 
Traz algumas coisas que pesam o coração
O coração pesado, derrama a lágrima
Que não sai mais dos meus olhos
É seco o que já não se tem mais, se
Perdeu em algum caminho de lá
Pra cá.
Até, amigo, até a próxima lembrança

Permanece enquanto eu permaneço, numa estrada de mil dias


domingo, 24 de setembro de 2017

Não, você já não me completa mais
Disse meu reflexo no espelho
Tentei dar um soco nele
Não atingi nada além de mim mesmo.


A horas que apenas tentamos sair um pouco
De nós, não ser ninguém, não ser outra coisa
Apenas gostaríamos de não ser nada.


E o terrível é pensar
Que o nada não existe

Tristeza abraço

Tristeza.
Uma vez você disse pra mim
Que viria me encontrar numa tarde
Pra irmos ao Parque das Rosas Azuis
Você veio na calada da noite, eu já estava em casa
Não estava com fome
Não estava cansado
Não tinha problemas sérios na vida
Você só veio, colocou a cabeça no meu peito e disse:
Meu amor, você sempre terá alguém comigo...

Então, sempre esteve
Em algum momento, em alguma hora, desde o ônibus
Até o dia nublado, do mais belo tempo ensolarado
Nunca deixou de cumprir sua promessa
É uma pena, que você não tenha um corpo
Me casaria com você, sua fidelidade é impecável
Tristeza,
Não é o que nos joga no lago, nos afoga em nós mesmos
Ela só permanece
É o permanecer da mortalidade
É o desejo de incontáveis coisas desistidas
É uma força da natureza.
Não se escapa de ficar triste
O dia tem sempre o crepúsculo

Não cabe aqui a defesa da mortalidade,
Não termina com boa mensagem
Não existe caminho fácil
Viver é difícil
Mas, sua companhia em algumas horas é o que tenho
E precisamos, apenas precisamos
De um abraço.

E do seu cadavérico beijo, Tristeza
Me despeço, me dispo de mim mesmo
Aquilo é ainda um feche de luz, ou o fino do último raio?


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Vitória dos cachos

Pedro adentrou pela Praça Vermelha
Em suas mãos, estava um cacho
De Anastácia
Pedro voltara vitorioso de sua guerra
Marchava com dez mil mechas e possuía onze mil mísseis
Buscava a moça de cachos pelas ruas
Frias e vazias
O general estava em si
E do seu mundo ele governava a si mesmo
Pedro andava pelas ruas soturnas
Elas estavam cheias de festança
Jamais ele vira tanta gente
Porém, com tanto vazio
Chegou a Grande Plaza, vendo a multidão
Ela não estava lá
Anastácia caíra no rio ou fugira durante
A revolução
Apenas ele, ali, sozinho na multidão
Governo de si mesmo
Vitória dos homens
Marchou mais do que qualquer outro
Não conquistou, porém, a própria felicidade
Ela, a batalha sempre perdida.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Cão Sem Dono



A mãe Márcia

Marcela estava triste
Com sua mãe, Márcia
Seu pai Pedro foi comprar cigarros
E jamais voltou
Marcela saiu pra se divertir
Encontrou com Fábio
Seu beijo acendeu uma estrela no Céu
Ou foi a bituca do amado?
Ninguém sabe
Nem Marcela, que dele ficou com o cheiro
Nas roupas ainda novas
Dadas pelo pai
Márcia ligou para Marcela, já não era mais sua filha
Primeira vez sentiu isto
Márcia sentiu sua filha no mundo
Só que não quis chorar
Já não tinha mais lágrimas, todas foram com Pedro
Comprar cigarros.
Estava feliz, talvez ela também pudesse
Um Fábio encontrar
Talvez até um Júnior


Vaga na Lua

Vou caçar uma vaga na Lua, por você
Uma órbita completa e metade dela
Sobre Júpiter

Lá estarei eu, esperando
Te olhando e cuidando
Se sobre as estrelas do Firmamento
Eu fiz a minha barraca
Nas minhas explorações do Universo
Aonde está o meu céu?

Já não sei mais, algumas coisas confusas acontecem
Outras profundas nos levam pra lá
E pra cá
O tempo parece comprimido
E no espaço de meses
Pareço viajar anos
Já não sei mais, talvez seja ao contrário
Ou já esteja feito

Nem mesmo a Lua permanece parada
No Firmamento
E em sua órbita ela orbita
Eu, estou lá
Olhando algumas coisas
Aquecido
Buscando uma pequena vaga naquela cratera lunar
Astronauta d'eu mesmo

Nossa viagem só termina quando
Terminar,
E, se você não encontrar uma Lua
Talvez, encontre alguém
O Universo é enorme e existem muitas Estrelas
Astronautas lhes conhecem, Astrônomos as descobrem
E algumas, só algumas, dado a finitude
De nossas vidas, comparadas a elas
Pode-se tropeçar em uma
E da vaga na Lua, vê-las brilhar
Em você.


Palavra e a Arte inútil

Escrever é um ato inútil, para tal
Talvez o escritor seja valorizado demais.
Escrever tem tons de doença, cada frase, cada palavra
Se encaixa como uma ordem
Não é pintura, não é arquitetura, muito menos
A beleza de um bom prato de comida, ou perfume
Não é a paisagem que eu vejo todas as manhãs
Que acordo com alguém estímulo
Não é a chuva que lembro dos dias funestos
Não, não é. Escrever nunca é algo, sempre fora.
Você fala do passado, terminado o processo


É a arte em término em si
Codificada numa língua, numa palavra
Jamais um pássaro voa duas vezes pelo mesmo caminho
Jamais uma frase uma vez dita
Volta a nossa boca
Seu peso cai sobre os ouvidos e você percebe
Que cometeu o erro da Verdade
Não admitimos a força da Palavra
Pois, não sabemos a Arte de compreender o outro


Numa conversa, num abraço, a força de um texto
Interajo com o mundo
Pois, nele estou
E na Geografia das palavras não ditas, esquecidas
E escritas
No frio do inverno, no calor do verão
A doença da escrita permanece
Fiel companheira
Jamais retornando pelo que jamais será não-dito.
Adeus mundo, minha palavra já está em você
Cuide bem dela,
Pois ela foi a minha melhor coisa naquele instante
Ou, pelo menos, a única.

Adentro na Vila

Adentrei na vila, após descer do ônibus
Teu cheiro ainda estava no meu caso, jasmim com morango
silvestres como fogo, melancolia trazia o meu peito
Ouvi então os corais pelas casas,
Vi um grupo de jovens vileiros, conversando sobre suas batalhas
Eu já era um derrotado, segui pela rua noturna
Vi dois seresteiros, desafinando canções antigas
E a noite estava quente
Mas, a brisa trazia consigo a paz
Antes da tempestade que ficou meu coração
Quando você não estava mais nele
Apenas eu me vi ali
Comigo.
E de todas as cartas que, aquele poeta suburbano poderia
me mandar
A última foi a mais impaciente
A mais sem imaginação
Eu estava sozinho, mas quando olhei minha armadura
Numa rachadura, dela nascia uma tulipa azul
Que jamais havia visto na temporada
Dos poetas mortos, caçados da adolescência
pelos corações da Vida Adulta

Adentrei na vila naquela terça-feira, ferido pelas minhas escolhas
Governado pela derrota de teus olhos, o problema era:
Os olhos eram meus em um espelho
Jamais foram de ninguém


terça-feira, 19 de setembro de 2017

Cada lágrima que se derrama é uma parte dum oceano de lembranças que preenchem nossa vida.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Homem Fragmentado

Em um limiar aonde a Esperança
se encontra apenas a Misantropia.

O machado que corta a si mesmo
E dois, em vários
Eu sou um como o Homem Fragmentado.

Faça Arte

Se não pode fazer nada de
Útil com o que sente
Faça arte
E renegue a sua insignificância

A estrada foi fechada
O sol está na sua cara, 
O inverno mais seco em décadas
E você apenas está úmido
Por dentro, uma única lágrima

Nada além de afogar-se
Em seu próprio Fosso
Do próprio Castelo
Sem príncipe, sem princesa
Você só sente aquele peso
Do seus ossos e corpo

Andando pé-a-pé pela ponte
Da muralha
Apenas vejo rostos conhecidos
De memórias que tento afogar
Elas sempre voltam
Como uma flecha com ponta curva

Não se mostra o que não se é
Se finge muito bem
mas, um dia as muralhas do castelo caem
Por mãos de seu dono ou dos bárbaros
E o rei está nu
de fronte ao pior inimigo possível
Si mesmo.

Faça Arte, mesmo que simples
Resista a sua insignificância
Aceitando-a
Não seja artista, pois este já humilde não é
E do insulto vive sua vida
Pra ver se em seu castela nascem flores
Que só são pinturas, sempre o serão.


domingo, 17 de setembro de 2017

pesquisador humano de animais humanos

Pessoas são como cães
alimente algo nelas, e florescerá, claro, as vezes o que não quer
eduque ou as vezes puna, e os costumes se constroem
Pessoas são como cães, as vezes gatos
se isolam, tentam encontrar sua própria canção
Não existe som nenhum.
Os poucos pássaros que vejo em seres humanos
Que formam laços fortes e viajam
São invejados pelos outros
Mas, não é inveja sincera, ninguém dos gregários está disposto
A sair
Pessoas possuem certa animalidade gregária
Criam filosofias como Vontade,
Potência, piadas
Não se escapa da condição animalesca humana

Sua superioridade sobre outros animais
Sempre dita hoje, como Cultura
Personalidade
Em sentidos práticos
É a coletividade e eficiência da Violência
Podemos matar, juntos ou sozinhos um número fantástico de seres
Isto nos difere
Fator negativo, fator que subtrai a vida
Não há lirismo, não existe poesia

E em nosso Mundo Racional
Não persegue-se mais Deus, nem a Verdade, apenas foca-se
Nesta vida medíocre e animal
Relego-me a minha insignificância
Minha luta é olhar pra você na fresta da janela
Voyeur da existência
No deserto ele fala sobre outros
Enquanto o eu já conforma-se, no animal que sou
Pesquisador poético de animais humanos.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sol que ilumina a tormenta

A paz de uma vida atormentada
É o silêncio da busca pelo último suspiro
Em cada momento não vivido
E lembrado como se fosse o único.
Não existe mais nada a não ser o silêncio
neste frio espaço sideral
Compreendo pouco o que meus olhos não vêem
No frio do escuro
Do espelho pétreo do nada
Daquele sol queimante lascivo
Naquele ônibus que parte do Centro pro
Bairro
Observo rostos vazios
Nada me contam, nada me dizem
Eu não digo nada também
pela janela nós vemos uns aos outros
Passarem seus dias, na iminência
De morrer de felicidade.
Vejo as bocas que nada mais falam
A não ser dos beijos que não deram, ou se arrependem
Juventude alongada, nada mais pensa que não seja
Dominar o mundo que nunca será seu
Não, a paz de uma vida atormentada
É o silêncio do barulho da cidade
Ouço apenas barulho, não escuto pessoas
Pois, elas já se foram
Seus corpos ali, suas mentes
Tomando o ônibus do Centro-bairro
Eu talvez, também
Minha vida atormentada
Meus passos cansados
Já não tenho mais pegadas
Que veja e reconheça como minhas
Somos todos um pouco dos outros agora
Atormentados
Num mundo de jovens bobos, velhos imbecis
Bocas que jamais beijam mais de uma vez
Olhares que se perdem nas janelas
E sol
O silencioso sol
Que ilumina a tormenta


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Venha Ulysses número 33

A vida não é bela
Beleza há no combate
A vida nos dá papéis, nós
Os representamos, meio
A contra-gosto


Esperando que ora do aço
Do saber, ora
Da Falsidade da juventude
Daquele pôr do sol com chuva, ou mesmo
Daquela despedida no terminal
Adquira algum sentido
Não, do fel da vida
Nossa consciência nada tira
Além de ver os ratinhos, os
Outros, executar balé Cômico
Trágico, Satírico ou Romântico


Não, meu caro Ulysses, não
Houve espera por você
E apenas no diminuir do eu, que
Acrescento a vida.


Ao combate, Ulysses!
Recupera teu reino, recupera
Tua vida!
Que é na batalha dos vivos que
Forja-se o guerreiro, não de deuses,
Mesmo perdido, mesmo Quixote, mesmo David
É pelo que faz do papel no palco
A diferença entre o quente
E o morno.

Marketing da Liberdade

O marketing da Liberdade
É fantástico
Vende-te a si mesmo como Livre
Como potente, mesmo que pequeno no Universo
Eu sou eu porque estou Livre e me faço livre
O marketing tem algo fantástico
Ele sempre comparativo é
Quero parecer ao meu amigo mais livre
Do que sou
Sou preso
Pelo meu amigo, por sua existência
E enquanto não destruir a ligação
Não destruo a mim
Mesmo, inliberto.

Porta

Roberto passava pela porta
E Ricardo o olhava, compenetrado em seus movimentos
Sabia que era a última vez que iam se ver
A noite havia acabado, o vinho, terminaria em alguns goles
E a porta quando se fechou
Parecia eternamente aberta
Deixando ele escapar por entre seus braços
Ricardo não chorou
Pôs sua coroa e olhou a fronte no espelho
Muitos anos haviam se passado
Desde a última vez que se vira
Estava mais velho, aquele homem
Anos acumulados naquela cabeça
Ideias que se foram
E a porta ainda permanecia em sua cabeça
Ela aparecida na sua face
Ricardo perdeu seu reflexo por um instante
Buscou-o no pensamento do espelho
Só lhe veio Roberto
Por um momento, só por um momento
E se foi
Ela parecia aberta, mas, estava fechada
Pôs sua coroa e olhou o dia
A noite havia terminado.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Depeche Mode - Strangelove (Remastered Video)

Orbitar

Alguma felicidade está
Em simplesmente olhar o acontecimento
No meio da sala
Observar e orbitar
Sobre aquele que venceu
É uma forma meio egoísta envergonhada
De se achar participante de algo
Maior
Sideral ou imperial
Dentro do mundo
Ver as coisas acontecerem para o bem, sendo
Na maioria que apenas gostam de ver o mal
É fortificante
O outro nos esquece de nossa mortalidade
E nele vemos a felicidade
Ficar realmente triste por aquel'é difícil
Ficar feliz pelo outro é uma das poucas
Genuínas faces da vida.
Alguma felicidade está
Em ver a estrada de tijolos amarelos ao seu lado
E mesmo que, apenas ouvinte ou sustentando sua mão
Ora criticando ou debatendo
Ter participado de algo maior
Que o eu.



Passa-se muito tempo falando de si
Perde-se muito pouco pensando em si
Viver não é contrário ao pensar
Existir tem como parte o pensamento
E sobre si mesmo e sua estrada
É a sina que todos nós caminhando
Devemos falar
Dentro de nós mesmos
Não se silencie.

sábado, 26 de agosto de 2017

Corpo Político

"Um grande problema das teses de hoje é a política do corpo. Quando se transmuta o corpo externamente a nós mesmos para uma coisa sempre política, se cria duas coisas: a primeira é o eu perdido, o livre-arbítrio torna-se construção de outros, o meio suplanta o interior dando-o a nossa vida um caráter menor, sempre de máscara e nunca de ator, acabamos não construindo nada por estas teses, mesmo que eles travestam-se de psicologia e simbolismo instrumental; a segunda é a própria onipotência da política, o agir-político e o ars politic fica interinamente em movimento, desconcertando-se as ideias de rotina, melancolia, tédio e mesmo das crises em si, pois, se tudo é política, tudo está em embate, logo, não há como identificar os movimentos reais de transformação, pois, tudo está em um processo (positivo ou negativo dependendo da sua visão ideológica). Assim, o corpo não torna-se prisão do aventureiro, mas, simples construção social (o símbolo toma parte do ente, logo, o símbolo sou eu?), os variados outros constroem uma obra vazia, a memória perdida e compartilhada não serve a nada, ela em si só caminha, caminha e não forma nada - mesmo que nós queiramos construir motivos para nossa vida e viver bem, mesmo que apenas livres, isto é inútil, não existe eu, nem o vazio, existe símbolo por esta visão moderníssima. Se não existe eu, porque continuar a escrever? E o niilismo envergonhado cria histórias de Vontade de Potência, pois terminar a si mesmo não pode, toda a Vida é transformação, se ele diz ser ela apenas contínuo vazio (morno, homens e mulheres mornos), logo, não existe vida" (Emil Haddaward, "Nas Garras do Fantástico")

Cada montanha

Cada montanha tem seu segredo.
Cada rocha e rochedo, guarda um pedaço
Do sol que lhe fez
Há zilhões de anos atrás
Naquela montanha, há algo diferente
Ela se escala todo o dia, busca confrontar a si mesma
Das asperezas da vida se tira duas certezas
Ou somos vítimas de nossa escalada
Ou fazemos o caminho continuar
E cadeias nenhumas de montes, colinas ou serras irão nos segurar
Dos pequenos caminhos que vejo aqui de cima,
Vejo você
Caminhando com seu tênis velho
E sei que está bem
Pois, seu espírito está em seus pés
E eles fazem a jornada
Valer a pena.
Cada montanha tem seu segredo
Que você só aprende ouvindo no pé-do-ouvido.

Céu Azul / Adote

No caminho do céu azul
Anda com passos pequeninos
Como todos nós na humanidade
Rosa.
Ela caminha, como choque
Pelo sky blue, cortando os universos do tempo-espaço
Da mente dos infiéis
Em pequenas sortes
Cada passo que se dá, se acha novas aventuras
Lembre-se disto, pequeno caminhante
Que cada passo atrás se dá as vezes cinco à frente
Do sol se vê a fronte, do bom combate se tira a melhor fonte
E em cada livro lido pelo
Seu caminho no céu azul
Se conquistam novos aspectos deste mundo
Em que por hora achamos uma estrela numa esquina
N'outra, sete pedras de sete palmos
Não nos abana, porém, nossa história.

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Adota para além de filho
Adotou-me por uma memória
Ajuda-te ajudando.
A de amigo é
A do amor?
Que ponte entre os dois, além
Daquelas que podemos construir juntos
Em toda a boa conversa.


Se a vida acabasse agora
Não seria uma boa
Ir embora?
Tédio. Apenas isto que vejo.
Não existe nada além do beijo, dos gracejos, dos saberes
E poucas coisas que escrevo
Nada mais que os pequenos detalhes
Sem nada pra se ver.
A melancolia é uma bela bebida
Pra quem acha isto juvenil, adolescente
Sempre aos adultos que suas contas, ao que parece ser a chave
De ser maduro
Pergunto se tens coragem de ver o espelho sua imagem
Sem temer que aquela pessoa esteja ali
Te olhando no canto.
Nada mais encontro nos mapas, a viagem
Acabou.
Paz não existe, apenas as guerras de todo dia
Rotina das leituras, das engrenagens ou dos pão-café-com-pão
Se a vida acabasse agora
Não seria uma boa?
Ir embora.
Vou.
Fico
Cada piscada de olho, mais próximo do penhasco fico
Maior a estrada percorro
Na minha visão.
Tediosa, melancólica, infantil-imapeável.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ditadura da Ação

Ficar contente com o pouco que sou
É a única estrada que vejo
Na janela do meu ônibus
É caminho seco e áspero de mim mesmo
Busquei por certos anos a chuva e a bonança
Vi que eu mesmo não era digno
Vi que outros ao redor eram menos ainda
Me fechei
Selo-me dentro de mim mesmo
Busco não mais o Eu
Passamos da idade disto
Não busco mais a tranquilidade
Utopia muito grande
Busco, talvez, o silêncio de algumas manhãs
Busco, talvez, a dignidade do trabalho algum dia recompensado
Porém, já não tem mais o Eu ali
Não está em nenhum lugar mais
O busquei por esquinas e perguntei para várias pessoas
Elas só me respondem com perguntas sobre si mesmas
Ou deboche
A única saída, as vezes
É a violência de si contra si
A destruição da Vontade pela Razão
A ilusão pelo "agir"
Vivemos ditadura da Ação
Mas, não vejo ninguém agindo
Apenas olhando seus próprios Narcisos
Como cães de caça por si mesmos
O mundo lhes passa e nada apreendem
Apenas dúvidas e mais dúvidas sobre si
O mundo passa
Não busco mais o Eu
Ele se perdeu totalmente
Dentro da aventura de minha vida
Mesmo rotineira, bucólica e ridícula.
O que é um nome
Além daquilo a ser esquecido
Apagar-se da vida de alguém é uma benção
Pena isto nunca se aplicar ao outro
Sempre, minimamente e por poucas gerações
Deixamos nossa marca no outro
Forja de nós mesmos
Cada dia que passa
Pensa no que forjas
A ti mesmo já está perdido
E esquecido.

domingo, 20 de agosto de 2017

Semana longa

Às vezes alguém para o tempo
Com você
E aquela semana parece durar meses, parece algo de anos
Atrás
Parece dura tudo
Porém, tudo que passa naquilo que me
Fortalece
E aquela semana passou
Mas, fica na memória
De você
Já não é mais diferente
Pois, a diferença vista com outros apequena
Pra uns isto é ruim, pra uns isto é banal
Banalizar-te a ti mesmo, as vezes, é único caminho
Pra encontrares
Um dos poucos alívios
Do corpo solitário
E aquela semana fica marcada em algum lugar lá
Dentro da memória
Uma guerra dentro da gente
Sempre é a melhor batalha.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Trevisan


O demônio tem olhos verdes
Ele não cala a boca
E não para de escrever
É poeta o demônio
Mas, talvez só pela espiação
Que se encontre uma ponta de deus
Algo que você entra dentro de si


E sem explicação
Encontra o silêncio
Deus é ira silenciosa
É intensidade
É a sabedoria de compartilhar o silêncio
Sabendo que é impossível voltar no tempo ou
Mesmo avançá-lo pra não dizer o dito
Pra não fazer o feito
Pra não ser o que sou


O demônio tem olhos verdes que me olham sempre
Ao olhar no espelho
Eu o encaro de volta, sabendo que dele
Nada posso esperar a não ser tragédia
E alguma comédia
Não posso fugir de minhas palavras e escolhas
Porque ainda são minhas


Posso tentar melhorá-las através
De livros, de poesia, de encontros e colegas
Posso tentar melhorar com estes atos de resistência
Mas, ele continua falando, falando e falando
Escrevendo, escrevendo, escrevendo
Até que, cansado, ajoelho
Na prisão que estou
Dizendo baixo que este caminho é o melhor
Que eu pude tomar
Por ser o meu


O demônio tem olhos verdes
O meu, o seu
Apenas uma porta para o deus
Que com cada memória
Atinge dos fundos oceanos até as mais altas
Estrelas

domingo, 13 de agosto de 2017

Citações 42

"Todo o sorriso que você acredita ser real é, mesmo que não acredite, uma parte de deus"

"A fé para o crente não é feita pelo que se faz, nem pelo que se espera. A crença não é esperança, é certeza, desde o destino até os mais variados deuses e deusas"

"A profundidade dos espíritos está em quanto ligamos pra eles no café da manhã ou no cair da noite. A importância muda, pois, em certa medida, nós mudamos um pouco a cada dia, porém, permanecemos os mesmos: as pessoas não mudam realmente, apenas se comportam diferentemente, apenas um trauma as forja novamente, ora para coisas mais fortes, se suportam humildemente, ora para vítimas, se apenas o tempo dos dias e anos forem necessários para lhes dar integridade nova"

Sobre Poetizas

"O amor romântico é, ao que parecem, uma criação masculina. Observo isto na poesia: é muito difícil encontrar uma poetiza ou força artística que se devote eminentemente a ideia de amor romântico, trata-se mais de formas de enxergar o relacionamento; aonde o lugar comum enxerga a mulher como sentimental, talvez ela seja a verdadeira potência racional, fria e calculadamente do amores. As poetizas, focadas em sua maioria no existencialismo, política ou poema-concretos apenas me dão algumas provas disto. Não trata-se do "macho com superior no amor", trata-se de visões diferentes, talvez os poetas tenham apenas uma idealização do amor para o seu gênero mais antiga ou com profundas diferenças daquela feminina, talvez os príncipes tenham sido criados pelos sapos."

sábado, 12 de agosto de 2017

Outros

Outros
São a porta entre o eu e o você, entre aquele
E nós, entre tudo e tudo um pouco
É a visão do outro que tentamos, em vão
Encaixar em nossas cabeças
Entretanto, os olhos são dos outros
O inferno são eles
E eu, por ora, inferno sou
Outro de você mesmo
Olho no espelho e vejo você
Mas, já é outra
Coisa, inferno
Apagado, escrevo na soleira da porta
Esperando que anjo não venha a noite
Levar m'alma
Porém, já não preciso mais olhar no olho d'outro
E se aquele vier me buscar
Pelos de peito aberto poderia, uma pouca e última vez
Imaginar o que teria sido
Ver a mim mesmo
Como outro que nunca fui
As vezes, precisamos ser
O espelho de nós mesmos


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Gratidão
É algo que não se explica, algo
Que não se mede
Algo que apenas, se diz
Obrigado
Por tudo que vivemos, por tudo que fizemos, por tudo
Que poderíamos ser e fomos em nossos sonhos
Gratidão é algo não constrói castelos
Mas, que fundi nossas almas
Que cresce no que somos
Que conduzi-nos na noite mais escura
Das neves e ventos mais intensos
Obrigado
É uma palavra muito jogada ao vento
Pouco concentrada na alma
Mas, para aquelas pessoas
Aquelas que valeram mesmo a pena
São sinceras como da nuvem mais intensa
Na tempestade solar mais furiosa
Obrigado
Não termina a luta, não finda o bom combate
De cada um de nós, da nossa guerra da gente
Mas, eu te uso, palavra que as vezes parecer amarga
De toda força de uma
Palavra
Gratidão
É o que tenho por você
Agora enfrento mundo, cada um de nós em nossa
Aventura.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Ami

Caçando moinhos gigantes
Você apenas pode contar com uma
Foto de Dorotéia
E ter sorte de ter um amigo Sancho
Se fosse Dom teria de amigo até o Príncipe
Quixote, somos todos detentores de uns poucos amigos
Tesouros da ilha perdida de Crusoé
Se todos querem ser Pernalonga
Apenas nós, Patolinos de fato, podemos contar com
Este sonho
Em nossos parcos amigos
Amizade é uma ciência da escassez
E as vezes da escolha

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Fernanda

Fernanda olhou a borboleta
Viu ela voar
Viu ela levar embora com ela
O sonho de Fernanda
A lágrima seca, a esperança pateta, aquela última viagem
"Vem pra casa, filha!" Gritou a voz masculina
A menina olhou a pequenina planar
Planar e voar
Até sumir
Escondida entre os planetas
Que o céu azul esconde de nós
Éter inebriante das borboletas sumidouras de sonhares
De Fernanda

Não é dia dos pais.
Sinto sua falta, sinto falta da compreensão
De ter o jeito arredio da fúria da tormenta
Que nele, os anos apaziguaram
Sinto sua falta, mas, sei que isto é fraqueza
Devo ser montanha
Pena, sou oceano
Aquilo que ensinou dos museus, do amor pela História
Da delicadeza do silêncio
Para responder as piores questões
Do tempo de um dia
Para acalmar os piores espíritos
"Só se dá valor naquilo que perde"
"Se vire"
"Ihhhhh"
Três pequenas frases das várias
Que não lembraria neste dia
Que não é dia dos pais
Aonde antes eu dava alguma calça, cinto ou gibi do Tex
Agora só dou uma certa saudade, nostalgia da velocidade
Agora só existe a tormenta
Dos céus silenciosos
Do pensamento daquele que já não é mais filho
Nem pai
O nada reside no Absurdo de alguns momentos
Que hora são o mínimo do que você precisa saber
Pra saber o que é ter seu pai
Adeus. Nunca você diz o suficiente para alguém que partiu
E nunca se deve
A vida é uma série de passos incertos
De uma dança silenciosa
De anos, momentos
E saudades
"Algumas pessoas estúpidas
Apenas pelo dadaísmo de si mesmas
Podem pintar belos quadros
O lobo espreita elas sempre
Temendo que elas o sejam também lupinos"

Aparece

"A alegria é para os idiotas"

Disse o sábio dos montes
Antes de se lançar no éter
E plainar para a Vida Eterna
"A fúria é a porta dos justos"
Disse a mãe
Antes de condenar o filho aos Tártaros
"A tristeza só atrasa a vida!"
Li no folheto do ônibus
Naquela estúpida rotina de trabalho
Por salário
"Eu gostaria de ser apenas sua amiga"
Disse Júlia, antes de desligar
O telefone vendo mensagens
E fingir olhar pra minha cara
"Olha, você tem de fazer a sua parte, nós faremos a nossa!"
Disse aquele amigo nerd de barba loira e óculos grossos
Como sempre quis dar um soco na cara dele
"Você tem de torcer pra alguém, garoto"
Técnico de Educação Física da quinta série
"Melhore sua letra"
Meu pai ou minha mãe pro caderno de Caligrafia
"Compre agora, o novo celular Elegê 580"
Algum anúncio em algum lugar
Chega
Disse eu mesmo no poema
Apenas mensagens, apenas aquela gigantesca máscara
Que são as palavras
Dos sentimentos do que hoje
Eu sei, eu vejo, eu faço
São as poucas ações
Do concreto passamos a ser uma Sociedade de Palavras
Contratos, Estados, computados
O pó do ser já não forma o querer
Aparenta-te que serás vivo!!


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Todo o ser humano não nasce em um processo. Dizer que ele é contemporâneo, moderno, antigo, arcaico, atrasado, tudo parte de um certo ponto de vista. Eu nasço em uma certa época, vou sendo parte de uma geração, vou passando por questões que vão desde relações de gênero, romances, literatura, filmes, cultura em geral que passam a partir d'onde estou, logo, há certa posição de nascer, existir é também estar.
Entretanto, o que se parte do pressuposto em certas linhas é que a mente das pessoas funciona, magicamente, como algo radicalmente que a "Cultura" funde, forma. O humano seria uma forma? Logo, estaria disposto como em um mapa, aonde os caminhos que "o constroem socialmente" delegam certas funções e classes? Entretanto, apesar de toda a condição mutante d'onde estou, é possível que nada haja? O ser então, alocado em sua condição estaria disposto no mar de nada? O que me vejo nada é do que aquilo que eu era, não o que me basta, o que estou sendo? Vivemos presos ao passado, esta talvez seja uma das maiores questões das linhas de pensamento do século XX" (Emil Hadaward, "Os Cavaleiros de Turim")

Caçando rouxinóis


Eu não conheço os rouxinóis
Apenas sei que há várias araras
Em minha mente
Aonde penduro ternos toda a semana
Pavão misterioso
Da madrugada não dita
Não vivida
Da imagem não pintada
Do quadro de aquarelas
Tão vívidas
Que acalentam a lembrança
Freud diria: Achou sua mãe? Está com seu pai?
Fora Ilíadas do Cientista Psicólogo
Até onde vai o seu ato
De escutar os pássaros do mundo
Pensando que você é maior que eles
Que tens domínio sobre o que podem fazer
Um dos vôos da humildade
É saber que o outro é
E nunca tantos livros formaram tantas bibliotecas
Filmes passaram em tantas telas
Séries tocaram tantas músicas
Quanto o fato disto:
Sou a prisão de mim mesmo
O que posso fazer, além de
as vezes, fazer um Castelo?
Enxergarei das nuvens ele... Saberei isto?
Não, estamos presos dentro dos espelhados olhar
D'outra humanidade

Carta ao leitor

Toda a história tem um fim
Um ponto
O primeiro verso, primeira sílaba
das últimas linhas, parágrafo dos últimos capítulos
É falsamente o mais difícil
Lê-lo o é
Saber dele o é
O autor nunca parece tocar na verdadeira obra
Um conto, uma poema, um romance
É no leitor que, palavra por palavra esperada, sentida
Corta na carte e traz
Pingo por pingo
A verdade daquilo que passou
O sol é uma estrela de milhares
O som do pássaro canta
Aonde o crepúsculo daquele apaga
E nas primeiras gotas de chuva
O autor a pena desce na mesa
Olha no horizonte e se espanta
Nunca poderei eu completar a minha obra
Pois, nunca leitor de nós
Serei.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

João, a Pedra

João, só por um momento
Largou de si mesmo
João virou pedra
Lá, observando ao seu redor, anos, séculos, milênios
Primeiro viu aquele moço com a lança, caçando
Depois, outro plantou
Um fez o que plantava, plantar e lhe dar um pouco
Dizia dar segurança, ouviu João, a Pedra
Então, depois de certo tempo, aquele que dava segurança
Ficou com vários que plantavam, ele colhia
Houve um momento que o perigo tão longe estava
Que o segurança precisava criar medo
O medo, viu João a Pedra, é um pequenino broto
Ele cresceu, virou árvore
E os que plantavam cortaram a cabeça do rei
"Nós agora nos cuidaremos sozinhos", disseram os plantadores
Poucos meses ou décadas depois, João já não se lembra
Novos seguranças surgiram, agora em vários lugares
Todos diziam ter o caminho da esperança
Todos diziam ser capazes e morais
Então, depois de um certo tempo, ninguém mais segurava nada
Tudo era fluído que desaparece no ar
E os plantadores criaram um ídolo, um totem
Pegaram a pedra João e lhe moldaram algo qualquer
E agora, esta coisa sem rosto, esta ideia, lhe dava segurança
Porém, João permanecia ali, impassível
Colocaram a Razão e deixaram a emoção, ficar seguro era agora ciência exata, economia social, ou qualquer nome
Menos João, ele estava apenas lá, firmamento
Então, a Segurança, bela senhora de pintinha na cara
Começou a ficar enamorada do Medo, agora belo e garboso
João, vendo o amor dos dois, começou a sentir algo
João, a pedra, sorriu
Os plantadores, os antigos seguranças, o símbolo que acreditavam
Nada disto parecia importar para aqueles pequeninos
A Senhora enamorava o Senhor e os dois giravam a roda
Cada vez mais rápido
João percebeu os gritos e ranger de dentes
Da eterna busca por algo fixo, seguro, mas com liberdade
João não precisava disto, era uma pedra
Era seguro por natureza e liberdade não era sua busca
João chorou
Com os pequeninos, a pedra viu seu fim
Eles o quebraram, dilaceraram
João ficou em silêncio
Eles o construíram em um castelo e diziam estar seguros ali
João, sorriu novamente
Sua busca continuará, pequenos
E nos milênios entre plantadores, seguranças e ídolos
A única coisa que permanecerá será a mim
João, a pedra

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Só com garrafas me fazendo companhia
Já está no fim da festa, desta noite
Comemoram formaturas
Encontram ficantes
Com namorados, namoradas, economizam pra sair com a e o fixo
Amigos, as vezes até parentes
Todos rebolaram suas bundas
Nas luzes de neon que agora estão me fazendo a cabeça arder
É quase sol nascente, logo o ônibus bem
A festa acabou
Só sobra o confete
Ninguém lembrará de nada, talvez eu, porque esta é minha função
Vendo eles se divertirem enquanto a ressaca cresce e estoura quando tiverem de levantar
Pro trabalho
Tudo é muito bucólico
As vezes acho até meio cômico, quando dentro da festa
Olho todos rebolando na balada
As luzes, meus olhos estranham ainda... Nada disto tinha na Grécia
Porém, mesmo rebolado
Pra lá, pra cá
É como o bater do coração
Com a dança dos pés, do corpo, o toque das mãos e dos olhares
No véu da festa
Baco na modernidade não faz muita coisa
Além de rir da ressaca, enxaqueca por causa das luzes
E cobrar a entrada
Alguém perdeu a comenda!!!


The Turtles - Happy Together - 1967

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Bandeira

Bandeira
Faz o ideólogo marchar, faz
Bandeira
Faz o militante confrontar, faz
Bandeira
Faz o general bravejar, faz
Bandeira
Faz o intelectual teorizar, faz
Bandeira
Faz o artista contestar, faz
Bandeira
Faz o jornalista questionar, faz
Bandeira, interessado nela, fui atrás de entrevistá-la
Encontrei apenas um ente que tremula
Silencioso, retumbante em seu movimento
Balangando no vento, das tempestades até as brisas
Tentei tirar duas ou três palavras
Só encontrei o movimento
Só encontrei o movimento da bandeira
No vento
Ela mesmo, arrancada do pedestal, apenas um pedaço de pano
Apenas com xícaras de chá, capas de livros
Forjados sobre fuzis e sangue
Apenas isto, um pedaço de pano no tempo
Bandeira, pus ela novamente no pedestal
Vi o vento suave da tarde movê-la
Ouvi ao fundo eles vindo
Era meu fim, a última tarde de um homem
A bandeira valia uma vida, talvez não
Mas, com certeza ela vale a vida de milhares
Pois, ninguém liga pra números, só ligam pra cabeça e para os reis
Dizer o contrário e fingir não ver a Bandeira
Lá, tremulando, na brisa
Das batalhas que ainda não viu
Bandeira, finge
Ser, faz e finge
Que a bandeira faz


(EEmil Hadaward)

Dorzinha amiga

Aquela dorzinha
Aquela minha amiga de longa data
Hora mora nas costas, quase todo o dia
Se muda até pro peito, naquele suspiro mal dado
Pula sempre para a cabeça, sobre algumas meditações quixotescas
No coração parece que de tempos em tempos
Vive em temporada
Lá ela faz a festa na praia, frango-farofa-cerveja gelada
Quanto mais tempo no computador, pulsos está a dor
Quanto mais tempo nas andanças nas ruas, pés visitas a visita
Aquela dorzinha
Aquela minha amiga
Nunca me abandona, talvez um dia, talvez quando os médicos
Doparem o suficiente
Talvez ela, minha amiga me vendo consternada, pense:
-Este meu amigo, agora vai visitar ele os outros
Então, ela me dá um beijinho no rosto, faísca de envergonhar
-Boa noite, meu doce príncipe
E sai pela rua a dor

(E Emil Hadaward)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Eu sou minha própria tempestade



"Eu sou minha própria tempestade"
Meus raios, minha chuva
A bonança que, quietinha, me faz sorrir naquela tardinha
Tudo isto rodando em uma espiral de fúria e frases jamais ditas
Pois, o silêncio do pensamento é uma benção
Que apenas a nossa voz espanta
Nunca te disse o que deveria dizer - pensa o gringo
Estrangeiro de si mesmo
Estamos todos numa viagem
Ora tempestuosa
Na maioria do tempo, o clima parece este
Temperado com sabores do vento
Jamais aquelas tardinhas parecem tão grandes quanto
O som dos trovões
Daquele beijo vazio, daquele tchau que eu dei
Para uma lembrança antiga
Não, não posso pensar apenas no perdido, ganha-se muito
Perde-se tudo
Na espiral da lembrança
Eu sou minha própria tempestade
E jamais escapo dela
Talvez você não esteja preparado para entrar
Porém, que chance tenho?
Se este visitante estrangeiro
Que sou eu
Só vai embora quando estiver morto?
(EE)
https://www.youtube.com/watch?v=_Y4VE8CJhlg

Ps.: Melhor disco do ano

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Livro

"-Você só vai aprender algo se correr atrás dela... Sabe, quando eu era jovem vi um livro num trem uma vez, esquecido. Eu li aquele livro por todo o verão - enquanto estávamos de férias da fábrica - e desde aquele dia nunca mais parei de perseguir o saber
-Qual livro era?
-Na verdade eram dois em um só, no começo era o Príncipe e depois Dom Quixote
-Nossa, isto é realmente interessante... Mas, o por quê de você jamais parar de ler, é um vício?
-Sim, o saber é um vício e um perigo, estamos sempre no limite de sempre querermos ser o Príncipe, com plenos poderes e aceito, e o Quixote, excluído por existir nas aventuras de seu próprio mundo... O combate entre estas duas forças está sempre em nossa comunidade, na nossa sociedade de indivíduos
-Incrível... Realmente incrível... Mas, você acha que existe alguma saída?
-... Bem...
Neste momento, aquele senhor que eu conversava me olhou nos olhos e disse:
-Nunca deixe de escolher
Ele olhava para aquele espelho, saiu e foi pegar o próximo trem para seu turno"
(Emil Hadaward, Eduardo Emilio "Desafinos de uma Noite do Meio-Dia")

quarta-feira, 28 de junho de 2017




Nunca comece a escrever ouvindo Oasis, você não para de escrever versos. Estas porcarias irritantes, doença maledeta da escrita, não cria nada de novo, só ponta de lança que fura coração, o otário escravo da palavra nunca dita, pois esquecida.

Desculpe.

Boa noite n1


As vezes você só consegue escrever
embrigado
Ou seja, é terrível quando se
É abstêmico
Embriaguez é de tédio
Ou é tediosa a embriaguez de escrever
Da escrita

Espada de dois gumes
As palavras cortam o teclado
Como cortam a sua cabeça
Pelo agir e mover dos teus olhos, moça
Moço
Calma na leitura, poesia é curta
Mas, é calma

Só funciona
Com lentidão da memória
E aí ela vem
E corta
Zup
Acabou a ideia
"-Boa noite, vou dormir"
Ela me disse
E fiquei sem ela
Minha poesia
Da palavra nunca dita
Naquela esquina

Fragmento n2

"Você temeu a vida inteira
Olhar dentro do espelho
E te encontrar de novo"

Fragmento n3

"Aquela moça que você conheceu
Numa pequena paisagem noturna
Não representa vida alguma
Apenas a lembrança que vem
Quando olho pela janela do ônibus
Toda vez que vem aquela memória
A dor é aquilo que foge o poeta
Ela engana realmente
É o único ser que vem junto com a vida
Talvez de alegrias
Talvez de algumas poucas carícias
Talvez de muitos ensinamentos não-prestados de atenção
Mas, estou ali
Eu, minha dor, minha memória
Minha vida.
Te tirem tudo, não pode escapar do que é
Não pode fugir da tua sombra assim como de tua história
Gasset disse: eu e minhas circunstância
Digo algo como: aquilo que tu vê
No canto do olho
Do espelho
É você espiando sua própria estória
No futuro
O que conta pra ele?"
(Emil Hadaward)

Fragmento n1

"sou uma coleção de destinos fragmentados
dentro de um fragmento de gente
sem rota definida
calamitando pelas campinas de uma cidade desolada
de milhões de pessoas
nada mais existe dentro daquilo que me fortalece
apenas aquilo que constitui
o ser e o nada
dos caminhos sem mapa
que são a vida do último humano na Face da Terra
da minha Terra
dos garotos perdidos"
(Emil Hadaward)

sábado, 17 de junho de 2017

"Uma vez me perguntaram qual seria uma forma que Inferno que realmente atormentaria, respondi:
-Seria exatamente o mesmo mundo, igual, com a vida, sonhos e fraquezas, porém, ninguém poderia esconder os pensamentos um dos outros. Poderíamos ver dos outros, tudo, absolutamente tudo, assim como nós também seríamos visíveis. Isto, meu caro, seria uma ótima forma de tomento, o Eu exposto é o fim do Eu." (Emil Hadaward)

domingo, 4 de junho de 2017

Você não precisa de um Espelho Negro
Para ver
Sua Mediocridade
É ser
Só ser

Aniversário 2017

Hoje completo 25 anos
Um quarto de século
Uma vida de parábola
Uma volta de Saturno no Sol
Um poema de Camões preso


Hoje completo um quarto de vida
Sem nunca roubar aquele beijo
Sem nunca viver mais de uma vez
Um desejo
Sem dedicar naquilo que já não creio
Sem dar uma volta naquele
Quarteirão desconhecido


Parece-me ruim a ideia disto
?
Das incompletudes de ser
Mas, será que podemos nos completar
Um dia?
Ou a vida seria, misteriosamente,
Realizações de quartos?


Abraços, poemas, beijos. desejos, sistemas, canções, textos, imagens e palavrões]
Na incompletude destas algumas
Vidas in/completas
(25/5/2017)

domingo, 28 de maio de 2017

Terrível

"Em uma reunião com velhos amigos, um destes me perguntou:
-Sabe o que é mais terrível de acontecer a um indivíduo racional?
-Tirar sua família - Respondi.
-Suas posses - Disse Ricardo.
-Seu amor! - Disse outro.
-Sua vida! - Disse Kátia.
-Não, qualquer uma destas coisas não poderia afetar a maioria dos seres pensantes, porém, dê-lhes algo que eles querem, qualquer uma destas coisas, então, de súbito, peça novamente!
-Ora, questionava Ricardo ressabiado, ele pode pedir qualquer coisa, ter qualquer coisa, porque devolveria?
-Ele não precisaria, imagine que não tivesse opção, que esta coisa iria embora de uma maneira ou outra...
-Então, o que seria terrível? - Interrompi
-Agradecer pelo que foi dado e odiar o seu fim, aí está, a balança entre a gratidão e a mortalidade das coisas e prazeres mata o homem, gota a gota, enchendo-lhe das mais terríveis esperanças.
...
Ficamos em silêncio, brindamos um pouco e até rimos."


Trecho do livro: Almoço Grátis
Sobre um cronista social que investiga um assassino de passados em uma sociedade pós-capitalista, autoritária e com mechas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Lei

A palavra de ordem ganha mais força que a própria "ordem", o grito que a palavra dita. Logo, de tanto gritar alguma coisa silencia, seja pelo ato de não ter mais voz, seja pelo ato da força

terça-feira, 11 de abril de 2017

Encharcado

Estado Mental:
encharcado até os ossos
Vicky estava olhando pra janela pensando
No último pingo de chuva
Que adormecia na terra
A água pingava nos óculos
A lua queimava na garganta
A chuva encharcava o ar
Ou ela encharcava a chuva existindo?
Não sei, preciso de uma toalha
Secador de cabelo
Chá quente
Mas, agora ainda não
Te caiu mais dois pingos d'água
Ela estava chovendo
Encharcado a vida até os ossos

quinta-feira, 23 de março de 2017

Filósofo

O filósofo tentou escapar da sua capa
De invisibilidade social
Não era preciso como o médico
O gari
O advogado
O açougueiro
O filósofo então tentou fazer Universidade
Tentou dar entrevista na Tv
Tentou montar blog e página
Tentou até escrever
O filósofo se cansou quando se deu conta
Que tinha esquecido
Foi pra caverna
Trancou-se lá até se entender
Apenas vendo a sombra dos outros a passar
O filósofo morreu de fome
Mas, agora estava no topo de uma montanha
Observado a humanidade, o humano e o comum
Culturas, amigos e gentes
Bem e mal
O filósofo decidiu voltar a vida
Não era pra falar, era pra ouvir
Então o filósofo saiu da caverna
Caverna que está aí
Foi assim que vi ela
Eu estava aqui, sentando no meu banquinho
De maquiagem
Ela entrou e começou a procurar um batom
Era o mesmo do meu
E eu senti
Que era o mesmo do dela
Não sou muito dessas que chega direto, mas
Quis ser certeira
Tinha de ser
Tinha 20 e poucos anos, sem diploma
Nem carreira
Tinha de buscar pelo menos um amor
Sorte no Jogo, nunca tive, afinal, sempre perdia no bafo
Pros meninos
Tentei
Ela sorriu
Não sei se sem jeito, ou pra me dar o telefone, contato, sei lá
...
A luz acabou na loja
E tudo no breu
Não mais vi ela
Quando acordei, já tinha passado
A oportunidade é algo que só existe quando estamos olhando
Pra ela
São como os sonhos
Se não, eles viram pedra
Mas, será que não é na pedra que devemos
Construir, não na areia?
Não sei, tenho 20 e poucos anos
Nenhum diploma
Nem carreira
Espera, é ela ali na porta?


quarta-feira, 15 de março de 2017

Felícia, minha gata, me perguntou se eu não poderia ser alegre e otimista como todos
-Não posso cortar esta lado, então, escrevo e poemo sobre ele
assim ele se silencia
Ela saiu pela porta com a cauda levantada, mas, antes disto me olhou e disse:
-Os outros usam esta mesma energia para serem felizes, contado suas vidas aos outros
-Talvez eles não queiram saber, talvez queiram apenas fazer algum som sobre a vida
-E porque não se pode apenas cantar nela? Uma linda melodia?
-As vezes uma bela melodia pode ser triste
-Que melancólico, você deveria beber um pouco
-E deixar de falar com você, minha gata?
-Não, ser um pouco mais otimista
-Eu sou otimista, mas, não com minha escrita, ela só vai de mal a pior
-Então, você deveria olhar uma parede e esperar o meteoro chegar
-E você deveria falar mais baixo, não quero que ninguém roube minha gata falante

Olhar parede

o mundo é uma macha vazia de tinta
que tinha
nos lábios da palavra não dita
um último affair de humanidade
eu a perdi, quando fiquei a fitar aquela parede
e gritar
morra cientista
morra escritor
morra poeta (...)
mas, a palavra era silenciosa
e seu sonho estava morto
bem-vindo a vida adulta, eles dizem
leia auto-ajuda, tenha filhos
um emprego e dinheiro
rebele-se contra o mundo numa faculdade, na internet
ou qualquer coisa brega destas
-Hm,
disse a voz na minha cabeça
você sabe que eles estão errados e que você tem a força dentro de si, não?
-Sei, mas, também sei que isto pode ser mentira
-E se for?
-Se for, estarei fazendo minha reclamação nas portas do tempo
-Então, lhe mostrarei o caminho amanhã
dormi, acordei e a voz não me deu o endereço
porém, a parede estava lá
e os sonhos perdidos não param de te perseguir
se não tem mais pernas
deixe eles apenas lá, quietos, que se calam
mas, a parede vai permanecer lá
(EE)