segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Fernanda

Fernanda olhou a borboleta
Viu ela voar
Viu ela levar embora com ela
O sonho de Fernanda
A lágrima seca, a esperança pateta, aquela última viagem
"Vem pra casa, filha!" Gritou a voz masculina
A menina olhou a pequenina planar
Planar e voar
Até sumir
Escondida entre os planetas
Que o céu azul esconde de nós
Éter inebriante das borboletas sumidouras de sonhares
De Fernanda

Não é dia dos pais.
Sinto sua falta, sinto falta da compreensão
De ter o jeito arredio da fúria da tormenta
Que nele, os anos apaziguaram
Sinto sua falta, mas, sei que isto é fraqueza
Devo ser montanha
Pena, sou oceano
Aquilo que ensinou dos museus, do amor pela História
Da delicadeza do silêncio
Para responder as piores questões
Do tempo de um dia
Para acalmar os piores espíritos
"Só se dá valor naquilo que perde"
"Se vire"
"Ihhhhh"
Três pequenas frases das várias
Que não lembraria neste dia
Que não é dia dos pais
Aonde antes eu dava alguma calça, cinto ou gibi do Tex
Agora só dou uma certa saudade, nostalgia da velocidade
Agora só existe a tormenta
Dos céus silenciosos
Do pensamento daquele que já não é mais filho
Nem pai
O nada reside no Absurdo de alguns momentos
Que hora são o mínimo do que você precisa saber
Pra saber o que é ter seu pai
Adeus. Nunca você diz o suficiente para alguém que partiu
E nunca se deve
A vida é uma série de passos incertos
De uma dança silenciosa
De anos, momentos
E saudades
"Algumas pessoas estúpidas
Apenas pelo dadaísmo de si mesmas
Podem pintar belos quadros
O lobo espreita elas sempre
Temendo que elas o sejam também lupinos"

Aparece

"A alegria é para os idiotas"

Disse o sábio dos montes
Antes de se lançar no éter
E plainar para a Vida Eterna
"A fúria é a porta dos justos"
Disse a mãe
Antes de condenar o filho aos Tártaros
"A tristeza só atrasa a vida!"
Li no folheto do ônibus
Naquela estúpida rotina de trabalho
Por salário
"Eu gostaria de ser apenas sua amiga"
Disse Júlia, antes de desligar
O telefone vendo mensagens
E fingir olhar pra minha cara
"Olha, você tem de fazer a sua parte, nós faremos a nossa!"
Disse aquele amigo nerd de barba loira e óculos grossos
Como sempre quis dar um soco na cara dele
"Você tem de torcer pra alguém, garoto"
Técnico de Educação Física da quinta série
"Melhore sua letra"
Meu pai ou minha mãe pro caderno de Caligrafia
"Compre agora, o novo celular Elegê 580"
Algum anúncio em algum lugar
Chega
Disse eu mesmo no poema
Apenas mensagens, apenas aquela gigantesca máscara
Que são as palavras
Dos sentimentos do que hoje
Eu sei, eu vejo, eu faço
São as poucas ações
Do concreto passamos a ser uma Sociedade de Palavras
Contratos, Estados, computados
O pó do ser já não forma o querer
Aparenta-te que serás vivo!!


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Todo o ser humano não nasce em um processo. Dizer que ele é contemporâneo, moderno, antigo, arcaico, atrasado, tudo parte de um certo ponto de vista. Eu nasço em uma certa época, vou sendo parte de uma geração, vou passando por questões que vão desde relações de gênero, romances, literatura, filmes, cultura em geral que passam a partir d'onde estou, logo, há certa posição de nascer, existir é também estar.
Entretanto, o que se parte do pressuposto em certas linhas é que a mente das pessoas funciona, magicamente, como algo radicalmente que a "Cultura" funde, forma. O humano seria uma forma? Logo, estaria disposto como em um mapa, aonde os caminhos que "o constroem socialmente" delegam certas funções e classes? Entretanto, apesar de toda a condição mutante d'onde estou, é possível que nada haja? O ser então, alocado em sua condição estaria disposto no mar de nada? O que me vejo nada é do que aquilo que eu era, não o que me basta, o que estou sendo? Vivemos presos ao passado, esta talvez seja uma das maiores questões das linhas de pensamento do século XX" (Emil Hadaward, "Os Cavaleiros de Turim")

Caçando rouxinóis


Eu não conheço os rouxinóis
Apenas sei que há várias araras
Em minha mente
Aonde penduro ternos toda a semana
Pavão misterioso
Da madrugada não dita
Não vivida
Da imagem não pintada
Do quadro de aquarelas
Tão vívidas
Que acalentam a lembrança
Freud diria: Achou sua mãe? Está com seu pai?
Fora Ilíadas do Cientista Psicólogo
Até onde vai o seu ato
De escutar os pássaros do mundo
Pensando que você é maior que eles
Que tens domínio sobre o que podem fazer
Um dos vôos da humildade
É saber que o outro é
E nunca tantos livros formaram tantas bibliotecas
Filmes passaram em tantas telas
Séries tocaram tantas músicas
Quanto o fato disto:
Sou a prisão de mim mesmo
O que posso fazer, além de
as vezes, fazer um Castelo?
Enxergarei das nuvens ele... Saberei isto?
Não, estamos presos dentro dos espelhados olhar
D'outra humanidade

Carta ao leitor

Toda a história tem um fim
Um ponto
O primeiro verso, primeira sílaba
das últimas linhas, parágrafo dos últimos capítulos
É falsamente o mais difícil
Lê-lo o é
Saber dele o é
O autor nunca parece tocar na verdadeira obra
Um conto, uma poema, um romance
É no leitor que, palavra por palavra esperada, sentida
Corta na carte e traz
Pingo por pingo
A verdade daquilo que passou
O sol é uma estrela de milhares
O som do pássaro canta
Aonde o crepúsculo daquele apaga
E nas primeiras gotas de chuva
O autor a pena desce na mesa
Olha no horizonte e se espanta
Nunca poderei eu completar a minha obra
Pois, nunca leitor de nós
Serei.