domingo, 26 de janeiro de 2014

Soco

 Retirou levemente as bandagens que cobriam suas mãos feridas, enquanto via os seus colegas, mortos em sua frente, abraçados com suas baionetas cravadas nos enormes robôs de brilho pálido e amarelado do Imperador.
as forças rebeldes estavam liquidadas e aquela moça, que lutava boxe e fora famosa um dia, não mais dizia nenhuma palavra, passava levemente a mão no cabelo rosa que crescia de novo... Não havia muita coisa além de olhar levemente para a poça que a chuva fazia, olhar sua cara careca.
 -Sou uma estranha aqui... - Disse, para os mortos, levantou-se e arrastou enormes luvas com caveiras desenhadas.
 -Se não temos nada pelo que lutar, talvez não seja preciso mais viver. - Falou para o abismo que aparecia na sua frente, era uma vala aberta por um bombardeio de Bomba Nadsat que transformou o céu em um grande espaço laranja, como o macacão dela, Varia Mari
Lá embaixo, alguns caídos pelo ataque posterior, e posterior, e posterior, não sei mais. Apenas vi que Varia andava em círculos, pensando qual seria o melhor momento para pular, quando, de repente, veio uma memória e a li:
 Espelho de cristal dado por seu namorado que era um gato refletia seu sorriso cômico cheio de dentes, pegava grandes luvas com caveiras desenhadas e colocava, firmemente sobre as mãos, aquela arma para seu Coliseu seguia com intensidade batia, lá estava ele, Rudolfo Pentaleão, o último campeão de boxe do Império...
 Um, dois, três assaltos e não havia mais Pentaleão, apenas seus dentes no chão deste fluxo de consciência que a memória final de Varia...
 Um belo cinto de alumínio e aclamação, correu para o quartinho aonde trocavam de roupa e a tirou, lá estava seu namorado, taciturno e olhando-a com olhos de sereia, olhando como se quisesse algo mais dela. E ela tirou a roupa e o beijou. O sol da manhã seguinte entrando pela claraboia foi o que os acordou, ela estava preguiçosa, mas, em pelo levantou enquanto ele segurava sua mão, sem soltar:
 -Esta guerra... Está chegando em nós, não? - Disse, soltando a mão dele e penteando os cabelos
 -Sim, está... Mas, nós venceremos ela antes... - Respondeu o namorado, pondo sua máscara de felino, que era moda naquela época daquele povo.
 -Somos vinte contra cem, o que podemos fazer?
 -Ter motivos para lutar, oras...
 - E qual é o seu?
 -Depor o Imperador...
 Ela permaneceu em silêncio, pôs um colete azul, bufou cansada por estar cedo e ter compromissos logo. Não disse adeus direito para ele, tomou café verde e beijou levemente a mão dele.
 Foi o dia do Grande Ataque, aonde as forças do Império arrasaram com Bombas Nadsat a capital dos rebeldes. Varia pegou um trem algumas horas antes, para promover sua vitória, aquele que ela não deu adeus direito, não.
...
 Olhou firmemente para os corpos lá embaixo, estavam cinzas ora laranjas.
 Deixou o corpo cair
 Todo o peso de tudo que tinha parecia enorme.



 Abracei-a com meu enorme braço, continua bela quando assustada, esta Varia. Com seu grito, revelei quem eu era dizendo algumas palavras:
 -Olá, Varia! Como está a minha campeã?
 A surpresa dela ao ver que eu, Rudolfo Pentaleão estava vivo fora enorme.
 Passado o susto, voltamos a andar, não havia muita coisa em pé, mas, achamos uma venda aonde deram água e suquinho para a moça. Seguimos pela cidade até encontrarmos uma patrulha de homens com cara de máquina, eles falavam com sotaque da Capital do Império e olhou Varia de perto...
 Passamos por eles, Varia estava exausta, queria descansar... Começou a clarear uma luz solar branca, que cortava as faces, ordenaram para que nós fossemos de volta para nossas casas, entramos em qualquer uma ainda em pé
 -Sabe... - disse-me ao achar uma cadeira - queria meu cabelo de volta, mas, com as bombas não dá... Passei um bom tempo da Guerra olhando-me em espelhos depois que perdi os cabelos, é fútil, não?
 -Por quê? Eu era barbudo e cabeludo e agora sou um ovo avermelhado... - Rimos, mas, não muito
 -Porque era por isto que lutava... Não era por alguém... Pensei nisto hoje, antes de... Bem, de você aparecer...
 -Mas, qual o problema de lutar pelo seu cabelo?
 -Mas... Quando minha terra natal explodiu... Bem... O que eu amava morreu em mim para virar isto: cerrou os punhos e me mostrou
 -Eu sempre li em livros e diziam pra nós na escola que, bem, deveríamos ter coisas grandes e honrosas para nos preocuparem... Depois de um tempo... Não sei... Não sei se isto realmente é real e de verdade
 -Então, se não lutarmos por grandes coisas, lutar pelo que?
 Olhei para o chão, era cinza como tudo, mas, ainda tinha manchas de laranja.
 -Pelo que lutou pela primeira vez? - perguntei
 Vi um fluxo vindo e entrei nele, lendo-o:
 Estava jovem a dona Varia Mari quando seu pai, numa cama, olhava-a a dizia, vestido de uma máscara de urso:
 -Filha, teu irmão é doente, tua mãe morta, o que fará para sustentar suas pernas?
 -Não sei, pai - Chorava, parou e falou: - Você me ensinou a lutar!
 Como se já soubesse a resposta, falou:
 -Olhe minha face
 Ela tirou sua máscara e viu a cara desfigurada do pai
 -Isto é pelo Boxe que lutei minha vida inteira, ele pôs comida para vocês por muito tempo e agora me matou...
 -Eu sei...
 -E quando meu pai morreu, do mesmo jeito que eu, também era assim...
 -Mas, o que vou fazer mais do que lutar?
 -... - o pai ficou em silêncio, apenas apontou para uma caixa enorme aonde as luvas que eram mais gigantes para ela naquela época estavam num baú no pé da cama
 Começou assim, de liga em liga, até o pai morrer por seus ferimentos, nunca mais disse uma palavra.
...
 No fim das contas, entendi, quando olhava para o corpo curvado de Varia naquela cadeira, a luz do branca do nosso sol cai-a-lhe nos olhos, acordou, me olhou e fixou enquanto eu dizia:
 -Esta na hora de irmos, Varia... Esta na hora de morrer
 Ela tocou na barriga e lá havia sangue, laranja, ainda brotando. A dor voltou e ela cuspiu em cima de mim...
 -Você me lembra ele... Pantaleão...
 -...
 -Nunca pude dar um adeus direito pra ele... Quando, a cidade explodiu e... E...
 -... Eu sei.
 E minha mão tornou-se cara crapulosa e curva, arranhava a parede, fendia pouco a pouco ela e tomava a sua energia, sentia que deixava ela mais e mais cansada... Estava tocando sua face, cortando a sua vida, quando ouvi ela dizer:
 -Lutei por você, lutei pelo meu pai... Lutei por rebeldes, lutei mesmo contra robôs... E...
 Minhas caras tornavam-la mais e mais pálida, o sopro ia vindo e eu começava a me sentir enlouquecido com aquele tom de rosa e laranja, aquela pequena era ótima... Senti quando ela me tocou na face, olhei-a nos olhos, os meus vermelhos e os dela verdinhos
 Disse qualquer coisa, ouvi apenas, em meu inebriante ato:
 -... mim
 Cai para trás a seguir, o soco foi tão forte, que eu não enxergava nada, ela corria pela porta iluminada, eu tentei me levantar, mas, cai novamente, estava morrendo... Com um soco estava morrendo...
 Minhas garras apontavam para a porta, quando vi o corpo de Varia iluminado pela luz, vi então ela como quando ganhou do seu amor Pantaleão o campeonato, vi ela rosa, laranja e dando porrada...
 Cuspi laranja, entrei em coma e morri, não sei se por sorte ou esperança