domingo, 9 de fevereiro de 2014

Espaço mudo

 Faz tempo que não recebo nada além de uma pequena luz pálida azul que corta minha tela esférica de minha nave. Olhando para o escuro eterno, minha tela projetada na janela coloca pontos e diversos elementos, talvez não tanto para a navegação, mas, para que eu não me mate de tédio.
 Tédio, a grande palavra da exploração de todos os tempos de nossa raça.
 Não há muito o que fazer além de anotar algumas ideias numa tela, tudo é quase que automático e alguns robôs vem e vão, com sua pequenês servil, levando para lá e para cá, arrumando alguns pinos e pontos-fundidos. Dei nome a cada um deles, os dezessete, que, solenemente, não me respondem, sabe, coisa de segurança: colocar voz em uma máquina sem sentimentos é perigoso pra cabeça...
 Então, em uma sinfonia insone, enquanto eu dormia com meu tapa-olhos, começa um tremendo barulho de luzes vermelhas piscantes e amarelas, a cor do perigo. Depois de cinco anos, algo acontece: as máquinas, enlouquecidas, correm de um lado para o outro, sacando facas elétricas de seus gabinetes que eu nem sabia que existiam, a máquina em forma de H põe-se a mexer-se, começa a sequência de ativação dos canhões de plutônio irradiado e dos círculos benzidos de energia eletromagnética, armas mortais. Uma única ordem aparece em toda a tela projetada pela nave, tomada agora de uma escuridão tenebrosa:
-SOREN, SOREN IAMATO, PREPARE-SE PARA O CONTATO
 Três gavetas abrem em meu quarto, uma com uma câmera ocular, indestrutível ao vácuo, ao qual coloco como uma lente, uma pistola-baioneta e uma pequena cápsula, se tomá-la, explodo atomicamente.
 Tudo fica em silêncio, em tremendo silêncio, as máquinas entram em modo espião, as câmeras em modo noturno e todo o som da nave é ampliado em alto-falantes em meu quarto: não são passos, são barulhos de arrasto, então, a porta da nave externa abre-se, ouço grunhidos e, logo, vários arrastos entram...
 A porta abre-se para o salão central, firmo o passo... Ele treme, firmo de novo, ele treme e continuo pelo estreito corredor até o salão central.
 Eles demoram a vir, o arrasto continua por uns dez ou quinze minutos, não lembro de ter nenhuma ideia ou sensação de heroísmo naquela hora, estava com pistola no coldre e a lente coçava; a cabeça vazia, mas, na espinha um pavor, tudo parecia mais escuro e a porta do salão, maior, a disformidade do pânico.
 Abre-se a porta.
 Um gás invade a sala, fecho meu capacete oval, tudo fica amarelado e meus olhos turvam, grito para o computador iluminar, as projeções no ar começam a vermelhidar... Na porta vultos enormes aparecem e, de repente, um entra... Um lindíssima mulher de olhos gatunos, uma lince de cabelos castanhos...
 -Fale comigo - estremeço a voz
 -Gkltar glutar... - Grunhidos que não compreendo... Entretanto, ela mostra para que eu retire o capacete, não aceito, acenando com a cabeça, o que ela não entende, fazemos mímicas estranhas entre nós...
 Algo voa dos outros vultos, acerta minha cabeça, neste momento, os robôs diminutos e com suas rodinhas, saem das paredes e tiram suas facas, toda a nave é iluminada, de forma que os vultos se revelem e, talvez, fiquem cegos... Olho para a linda moça por uma última vez, até que meu capacete se quebre e o gás entre... Desmaio

 Ela me dá um beijo em um enorme deserto... É tudo muito amarelo e nada parece acontecer além dela me olhar com olhos castanhos-azuis... Ela seria uma mestiça? Um feito-em-laboratório? Não sei, não me importa...
 Me toma pela mão e me leva entre enormes construções estranhas, parecidas com árvores, sequoias de pontas coloridas, apenas vejo pessoas de branco nelas. Ao fundo, em montanhas vermelhas, pontas se acendem para o céu, como nossos foguetes na Velha Terra. Então, seguimos entre alguns arbustos dispostos em círculos e ela me mostra uma pequena lata avermelhada, eu a abro e o ar amarelo escapa dali...
 -É isto que me deixou assim?
 Ela apenas aponta para a lata, ninguém fala ali, o silêncio é tenente, mestre daquele sonho inteiro, apenas escuto minha respiração, apagando... Ora, acordando.
 Saco a minha pistola, ela me olha atentamente, sinto que os outros, todos vestidos de branco, também me observam atentamente... Sinto que posso ainda ter contato com alguma forma física de mim mesmo, então, coloco a pistola no coldre novamente e, pensando muito bem naqueles instantes, tiro de um pequeno bolso a pílula e coloco na boca... Ela age em cinco segundos, se meu coração parar, e isto é que ele não faz naquele momento
 Olho para os olhos dela, ela me fita profundamente, sinto que nós temos uma certa semelhança... Talvez o "tal espírito" que os filosofógrafos buscavam em tantas colônias e teorias... Não sei como comportar-me, nem ela...
 Então, tomo ela me meus braços e os outros movem-se para tirá-la de mim, sou mais rápido e beijo-a profundamente.

 Tudo clareia e estamos no salão, a fumaça se dissipa e há um enorme ser caído aos meus pés, é um enorme ser lesmiforme, com braços peludos e face de uma boca e dois olhos, acho que são olhos. Ele está de certa forma desmaiado... Os outros me olham, estão com carapaças negras de adornos amarelos... Eles retiram pontas que seguram com seus três braços peludos, os robôs se lançam enquanto gritam um avisto: "ARMA TÉRMICA REGISTRADA"
 Fecho os olhos e abaixo minha cabeça, eu fui um péssimo embaixador para a única raça inteligente encontrada por nós em cento e cinquenta anos... Então, quando olho para o ser caído aos meus pés, ele sorri pra mim e pressinto ser ela...
 Veja só, nunca me apaixonei na Velha Terra nem em Tritão, nem em Zéfiro, ou outra colônia... Estranho este mundo...
 A arma dispara e meu peito explode em faíscas vermelhas do meu sangue, os robôs trucidam os seres que grunhem algo... Enquanto eu estou caído, tendo voado pelo salão e batido na parede, olho para a cara do ser na minha frente, ferido, acho que vi um sorriso...
 O flash da cara da mulher da ilusão me vem, então, sinto um enorme fogo subindo e, bem, logo, tudo fica claro e eu sou o primeiro a encontrar o som no espaço.


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